
por Rudinei Borges
1. Introdução
Modernidade. Tempo de mudanças. Recomeço. Renascimento. Ciências. Descobertas. Desejo de conhecer o ser do homem. São estas as questões chaves de um dos períodos mais férteis da História da Filosofia que vamos estudar nesta breve pesquisa. Trata-se da Filosofia Moderna.
A Filosofia Moderna corresponde ao pensamento desenvolvido da metade do século XV ao final do século XVIII. O que chamamos de mentalidade moderna advém das transformações culturais, sociais, religiosas e econômicas que ocorreram na Europa deste período.
Neste importante período da história da humanidade a teoria política e científica ganhou novos ares e as transformações pelas quais passava o continente europeu entre os séculos XV-XVIII foram marcadas por um movimento de novas elaborações filosóficas. Maquiavel, Montaigne, Erasmo, More, Galileu, Descartes, Locke e Kant são alguns nomes significativos para a Filosofia do período.
As perguntas sobre os fundamentos da realidade eram revestidos de questionamentos sobre o que é o conhecer e o papel do que se passou a chamar de “sujeito moderno”. Do “cogito” cartesiano aos princípios da experiência, passando pelas novas invenções, temos um panorama de algumas questões da Idade Moderna.
Ao longo de todo o século XVIII desenvolveu-se a escola Iluminista com suas críticas ao mundo do Antigo Regime. Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Diderot e outros elaboraram propostas consideradas revolucionárias para a época.
A Idade Moderna é marcadamente caracterizada pelo fim do feudalismo e o surgimento de um novo sistema econômico, o capitalismo. Ou seja, trata-se de um momento em que ocorre o crescimento do comércio e a ascensão da burguesia.
Neste sentido é importante saber que burguesia é uma classe social surgida na Europa em fins da Idade Média, com o desenvolvimento econômico e o Aparecimento das cidades, e que veio a dominar a vida política, social, econômica e intelectual (FERREIRA, 2001: 112). Já o termo capitalismo significa um sistema econômico e social baseado na propriedade privada dos meios de produção, na organização da produção visando o lucro e empregando o trabalho assalariado, e no funcionamento do sistema de preços (FERREIRA, 2001: 128).
O mercantilismo, considerado a primeira etapa do capitalismo, foi estabelecido como forma de fortalecimento das economias nacionais, levando a um impulso da navegação e à chegada a novas regiões do planeta. São exemplos de grande prodígio da navegação a chegada, em 1492, de Cristóvão Colombo à América, declarando-a colônia da Espanha, e também a primeira viagem ao redor do mundo, entre 1519 e 1522, comandada por Fernão de Magalhães.
Outro fenômeno significativo foi a formação de novos Estados Nacionais, o que levou à discussão sobre as formas de governo, pois neste momento há na Europa a centralização do poder através da monarquia absoluta, isto é, o absolutismo.
O movimento conhecido como Reforma protestante quebrou a unidade religiosa européia, dividindo a Igreja Católica. O que rompeu com a concepção passiva do homem, entregue unicamente aos desígnios divinos, e reconheceu o trabalho humano como fonte da graça divina e origem legítima da riqueza e da felicidade. O homem pôde, afinal, pensar livremente e responsabilizar-se por seus atos de forma autônoma.
O homem na Idade Moderna contraria a supervalorização da fé cristã, do teocentismo (Deus no centro) e passa a uma tendência antropocêntrica (o homem como centro), valorizando a obra humana. A Filosofia Moderna é marcadamente laica, ou seja, não-religiosa, o que a distancia em vários fatores da Filosofia Medieval. Esse interesse pelo homem pode ser explicado nas palavras de Shakespeare, autor de peças como Hamlet e Romeu e Julieta: “Que obra de arte é o homem: tão nobre no raciocínio; tão diverso na capacidade; em forma e movimento, tão preciso e admirável; na ação é como um anjo; no entendimento é como um Deus; a beleza do mundo, o exemplo dos animais”.
A crença na razão humana e o questionamento aos dogmas do catolicismo levaram o homem moderno ao desenvolvimento da ciência natural e a criação de novos métodos científicos.
Também, não podemos deixar de citar, a relevante invenção da imprensa, que possibilitou a impressão dos textos clássicos gregos e romanos que contribuíram decisivamente com essa nova mentalidade moderna. Com a imprensa foi possível divulgar as descobertas científicas, filosóficas e artísticas.
2. O Renascimento
Todas essas conquistas e transformações culminam num movimento que é considerado o marco inicial do pensamento moderno, trata-se do Renascimento.
O termo Renascimento é comumente aplicado à civilização européia que se desenvolveu entre 1300 e 1650. Além de reviver a antiga cultura greco-romana, ocorreram nesse período muitos progressos e incontáveis realizações no campo das artes, da literatura e das ciências, que superaram a herança clássica. Destacam-se pintores como Botticelli, Leonardo da Vinci, Rafael e Michelangelo.
O ideal do humanismo foi sem dúvida o móvel desse progresso e tornou-se o próprio espírito do Renascimento. Trata-se de uma volta deliberada, que propunha a ressurreição consciente (o re-nascimento) do passado, considerado agora como fonte de inspiração e modelo de civilização. Num sentido amplo, esse ideal pode ser entendido como a valorização do homem (Humanismo) e da natureza, em oposição ao divino e ao sobrenatural, conceitos que haviam impregnado a cultura da Idade Média.
Os primeiros filósofos modernos, os renascentistas, tiveram que enfrentar as forças e as punições ligadas ao passado medieval. Os grandes pioneiros da ciência moderna sofreram perseguição do Tribunal da Inquisição, órgão da Igreja Católica encarregado de descobrir e julgar os responsáveis pela propagação de heresias, concepções contrárias aos dogmas católicos.
3. Giordano Bruno
Giordano Bruno foi condenado à morte na fogueira por contestar o pensamento católico, que tinha como um dos pontos básicos a crença de que o planeta terra era o centro imóvel do universo. Bruno defendia que o universo é um todo infinito, cujo centro não está em parte alguma.
Giordano Bruno é o filósofo italiano mais importante do renascimento. Nasceu em Nola, em 1548, e entrou na Ordem dominicana; depois a abandonou, acusado de heresia e viajou por diversos países da Europa. Depois, retornou para a Itália. A Inquisição de Roma encarcerou-o no ano de 1592. A sua morte trágica e o brilhantismo apaixonado de seus escritos deu-lhe uma grande fama que contribuiu para aumentar a sua influência posterior.
Bruno foi panteísta. A sua tese capital é a imanência de Deus no mundo. Ele identificava o mundo com Deus. Deus é a natureza criadora, a alma divina do mundo. O Deus da filosofia é causa imanente e harmonia do universo. O universo é infinito, inclusive sob o ponto de vista espacial. E está cheio de vida e beleza, pois tudo são momentos da vida divina. Tudo é riqueza e multiplicidade. Como observa o pesquisador Julián Marías, há em Giordano Bruno um entusiasmo estético pela natureza, que é a chave da atitude renascentista.
4. Nicolau Copérnico
Dentre os pensadores renascentistas interessados por uma nova ciência da natureza, destaca-se Nicolau Copérnico. Ele foi um sacerdote polonês e viveu de 1473 a 1543. Estudou matemática, astronomia e medicina. Escreveu o livro “Da revolução das esferas celestes”, em que combatia a teoria geocêntrica (a Terra vista como centro do Universo) e propunha a teoria heliocêntrica, mostrando que a Terra girava em torno do Sol, e que este era o centro do nosso sistema planetário. O revolucionário livro de Copérnico foi escrito no ano de sua morte e escapou, de início, à condenação católica, que viria com a reativação da Inquisição, após o Concílio de Trento (1545-1563).
A formulação de Copérnico de que é o Sol, e não a Terra, o centro do Universo atingia a concepção medieval cristã de que o homem é o ser supremo da criação e, nessa condição, seu hábitat, a Terra, deveria ser o privilégio de ser o centro em relação aos outros astros. Essa foi a reação da Igreja Católica à tese de Copérnico.
5. René Descartes
Outro grande pensador da Filosofia Moderna, e talvez o maior deles, foi René Descartes. Ele nasceu em 31 de Março de 1596 na França e faleceu em 11 de Fevereiro de 1650 em Estocolmo, na Suécia. Também ficou conhecido como Renatus Cartesius (forma latinizada), foi filósofo, físico e matemático francês. Notabilizou-se sobretudo por seu trabalho revolucionário na filosofia e na ciência, mas também obteve reconhecimento matemático por sugerir a fusão da álgebra com a geometria – fato que gerou a geometria analítica e o sistema de coordenadas que hoje leva o seu nome. Por fim, ele foi uma das figuras-chave na Revolução Científica.
René Descartes durante toda a sua vida viajou muito pela Europa. Ainda jovem, ele manifestou o desejo fervoroso de conhecer a natureza do homem e do universo. Mas, depois de estudar filosofia, conscientizou-se, sobretudo que ele tinha muito a conhecer. Para Descartes a razão era o único meio de chegarmos a um conhecimento seguro. Não devemos confiar sequer no que os nossos sentidos nos dizem.
Para o escritor Jostein Gaarder, de Sócrates e Platão parte uma linha direta até Descartes, passando por Santo Agostinho. Todos eles eram racionalistas convictos. Para eles, a razão era a única fonte segura de conhecimento. Depois de muito estudar, Descartes chegou à conclusão de que não podia confiar muito no conhecimento herdado da Idade Média.
O próprio Descartes conta que seu objetivo passou a ser a procura por um conhecimento que ele podia encontrar dentro de si mesmo ou “no grande livro do mundo”. Por esta razão, entrou para o exército e, assim, pôde prestar seus serviços em diferentes pontos da Europa central. Mais tarde, passou alguns anos em Paris. Em maio de 1629, viajou para a Holanda, onde viveu por quase vinte anos enquanto trabalhava em seus escritos filosóficos. Em 1649, a rainha Cristina convidou-o para ir à Suécia. Mas a estadia em Estocolmo lhe trouxe uma pneumonia, que o acabou matando no inverno de 1650.
Descartes, por vezes chamado de “o fundador da filosofia moderna” e o “pai da matemática moderna”, é considerado um dos pensadores mais importantes e influentes da História do Pensamento Ocidental. Inspirou contemporâneos e várias gerações de filósofos posteriores; boa parte da filosofia escrita a partir de então foi uma reação às suas obras ou a autores supostamente influenciados por ele. Muitos especialistas afirmam que a partir de Descartes inaugurou-se o racionalismo da Idade Moderna – enquanto que décadas mais tarde se assentaria nas Ilhas Britânicas, através de John Locke e David Hume, principalmente, um movimento filósofico que de alguma forma é oposto no qual se convencionou chamar de empirismo.
Após a inebriante redescoberta do homem e da natureza no Renascimento, a necessidade de se reunirem os pensamentos contemporâneos num único e coerente sistema filosófico voltou a se apresentar. O primeiro grande construtor desse sistema foi Descartes, e a ele seguiram-se Spinoza e Leibniz, Locke e Berkeley, Hume e Kant.
Somente no século XVII é que a filosofia tentou reacomodar os novos pensamentos num sistema filosófico. O primeiro a fazer esta tentativa foi Descartes. Ele deu o pontapé inicial naquilo que se tornaria o mais importante projeto filosófico para as gerações seguintes. A primeira coisa com a qual ele se preocupou foi com aquilo que já sabemos, isto é, com a questão de saber se nossos conhecimentos eram realmente seguros. A segunda questão que mais lhe ocupou a atenção foi a relação entre o corpo e a alma. Essas duas problemáticas viriam ocupar a discussão filosófica dos próximos cento e cinqüenta anos.
No que se refere à questão de como podemos obter um conhecimento seguro, muitos expressavam o seu total ceticismo filosófico. Para estes céticos, o homem simplesmente tinha de se habituar com a idéia de não saber nada. Mas Descartes não se conformava com isto. Aliás, se tivesse se conformado, não teria sido um filósofo de verdade. Precisamente na época em que Descartes viveu, a nova ciência natural tinha desenvolvido um método que, a seu ver, levava a uma descrição exata e muito confiável dos processos da natureza. Descartes perguntou-se, então, se não haveria um método igualmente exato e seguro para a reflexão filosófica.
Descartes é considerado o primeiro filósofo “moderno”. A sua contribuição à teoria do conhecimento é essencial, assim como às ciências naturais por ter estabelecido um método que ajudou o seu desenvolvimento. Descartes criou, em suas obras Discurso sobre o método e Meditações as bases da ciência contemporânea.
O método cartesiano consiste no Ceticismo Metodológico – duvida-se de cada idéia que pode ser duvidada. Ao contrário dos gregos antigos e dos escolásticos, que acreditavam que as coisas existem simplesmente porque precisam existir, ou porque assim deve ser etc., Descartes institui a dúvida: só se pode dizer que existe aquilo que possa ser provado, sendo o ato de duvidar indubitável. Baseado nisso, Descartes busca provar a existência do próprio eu (quem duvida, portanto, é sujeito de algo – cogito ergo sum, penso logo existo) e de Deus.
Descartes afirmava: “Não basta termos um bom espírito. O mais importante é aplicá-lo bem”.
6. Immanuel Kant
Mesmo com a significativa obra de Descartes um outro pensador do final da Idade Moderna se destacou por elabobar um dos mais consistentes sistemas filosóficos da história do pensamento ocidental. Immanuel Kant nasceu, estudou, lecionou e morreu em Koenigsberg. Jamais deixou essa grande cidade da Prússia Oriental, cidade universitária e também centro comercial muito ativo para onde afluíam homens de nacionalidade diversa: poloneses, ingleses, holandeses. A vida de Kant foi austera (e regular como um relógio). Levantava-se às 5 horas da manhã, fosse inverno ou verão, deitava-se todas as noites às dez horas e seguia o mesmo itinerário para ir de sua casa à Universidade. Duas circunstâncias fizeram-no perder a hora: a publicação do Contrato Social de Rosseau, em 1762, e a notícia da vitória francesa em Valmy, em 1792. Segundo Fichte, Kant foi “a razão pura encarnada”.
Kant sofreu duas influências contraditórias: a influência do pietismo, protestantismo luterano de tendência mística e pessimista (que põe em relevo o poder do pecado e a necessidade de regeneração), que foi a religião da mãe de Kant e de vários de seus mestres, e a influência do racionalismo: o de Leibnitz, que Wolf ensinara brilhantemente, e o da Aufklärung (a Universidade de Koenigsberg mantinha relações com a Academia Real de Berlim, tomada pelas novas idéias). Acrescentemos a literatura de Hume que “despertou Kant de seu sono dogmático” e a literatura de Russeau, que o sensibilizou em relação do poder interior da consciência moral.
A primeira obra importante de Immanuel Kant – assim como uma das últimas, o Ensaio sobre o mal radical – consagra-o ao problema do mal: o Ensaio para introduzir em filosofia a noção de grandeza negativa (1763) opõe-se ao otimismo de Leibnitz, herdeiro do otimismo dos escoláticos, assim como do da Aufklärung. O mal não é a simples “privatio bone”, mas o objeto muito positivo de uma liberdade malfazeja. Após uma obra em que Kant critica as ilusões de “visionário” de Swedenborg (que pretende tudo saber sobre o além), segue-se a Dissertação de 1770, que vale a seu autor a nomeação para o cargo de professor titular (professor “ordinário”, como se diz nas universidades alemãs).
Nela, Kant distingue o conhecimento sensível (que abrange as instituições sensíveis) e o conhecimento inteligível (que trata das idéias metafísicas). Em seguida, surgem as grandes obras da maturidade, onde o criticismo kantiano é exposto. Em 1781, temos a Crítica da Razão Pura, cuja segunda edição, em 1787, explicará suas intenções “críticas” (um estudo sobre os limites do conhecimento). Os prolegômenos a toda metafísica futura (1783) estão para a Crítica da Razão Pura assim como a Investigação sobre o entendimento de Hume está para o Tratado da Natureza Humana: uma simplificação brilhante para o uso de um público mais amplo. A Crítica da Razão Pura explica essencialmente porque as metafísicas são voltadas ao fracasso e porque a razão humana é impotente para conhecer o fundo das coisas. A moral de Kant é exposta nas obras que se seguem: o Fundamento da Metafísica dos Costumes (1785) e a Crítica da Razão Prática (1788). Finalmente, a Crítica do Juízo (1790) trata das noções de beleza (e da arte) e de finalidade, buscando, desse modo, uma passagem que una o mundo da natureza, submetido à necessidade, ao mundo moral onde reina a liberdade.
Kant encontrara proteção e admiração em Frederico II. Seu sucessor, Frederico-Guilherme II, menos independente dos meios devotos, inquietou-se com a obra publicada por Kant em 1793 e que, apesar do título, era profundamente espiritualista e anti-Aufklärung: A religião nos limites da simples razão. Ele fez com que Kant se obrigasse a nunca mais escrever sobre religião, “como súdito fiel de Sua Majestade”. Kant, por mais inimigo que fosse da restrição mental, achou que essa promessa só o obrigaria durante o reinado desse príncipe! E, após o advento de Frederico-Guilherme III, não hesitou em tratar, no Conflito das Faculdades (1798), do problema das relações entre a religião natural e a religião revelada! Dentre suas últimas obras citamos A doutrina do direito, A doutrina da virtude e seu Ensaio filosófico sobre a paz perpétua (1795).
7. A Filosofia Política
Nesta última parte de nosso vídeo queremos destacar que um dos movimentos mais importantes da Filosofia Moderna, caracterizou-se por uma preocupação dos filósofos com as questões políticas, ou com a política. O que é uma herança da filosofia clássica da desenvolvida na Grécia. Neste âmbito, destacaram-se vários filósofos como Thomas Hobbes, Jean-Jacques Rousseau, John Locke e Maquiavel, entre outros.
Maquiavel
Nicolau Maquiavel (1469-1527) é um dos mais importantes pensadores de todos os tempos, especialmente para o campo da política, por um motivo bastante simples: ele foi o primeiro a dissociar a política da moral.
A característica mais marcante da obra maquiaveliana reside justamente no fato de que Maquiavel, ao pensar e escrever sobre política, rejeitou completamente o idealismo dos clássicos e rompeu definitivamente com a velha moral católica.
Enquanto Platão, Aristóteles, Santo Agostinho e Thomas Morus, por exemplo, procuraram estabelecer as características de um Estado ideal, Maquiavel seguiu no sentido oposto: ao invés de se preocupar com o que o Estado deveria ser, procurou desenvolver uma teoria a partir do que o Estado era de fato. O pensamento maquiaveliano se baseia na análise da história, uma vez que Maquiavel procurou aprender com as ações dos grandes homens nos grandes momentos da história, bem como na psicologia, já que quis compreender a natureza do homem na história, e como este se comportou ao longo dela.
Essa “análise retrospectiva” dos fatos históricos levou Maquiavel à constatação de que, ao longo de toda ela, os homens mostraram-se sempre os mesmos: ingratos, volúveis, simuladores, covardes e ávidos por lucro. Por essa razão, um governante (“príncipe”, na terminologia maquiaveliana) que pretendesse comandar o Estado deveria possuir duas características imprescindíveis: força e inteligência. A primeira, para conquistar o poder; a Segunda, para mantê-lo.
Os expedientes utilizados pelo príncipe para a manutenção da ordem no Estado, ao contrário do que haviam preconizado todos os pensadores anteriores a Maquiavel, não deveriam ser previstos em nenhuma lei ou norma moral; ao contrário, era cada situação que determinaria o que seria certo ou errado, moral ou imoral, bom ou mal. Maquiavel inaugura, assim, a “moral de circunstância”, que era completamente avessa à velha moral católica.
Por conta disso, usa até mesmo hodiernamente, o termo “maquiavélico” para designar as pessoas malevolentes, astutas e impiedosas: a própria Igreja incumbiu-se de conspurcar a imagem de Maquiavel, pelo fato deste ir de encontro a seus interesses.
Para Maquiavel, toda sociedade poderia passar por três estados (“estado” com letra minúscula, querendo significar “situação”): anarquia, principado e república. A Itália, naquele momento, estava gravada pela anarquia; precisava de um príncipe virtuoso, que reorganizasse e unificasse o Estado Italiano, e depois deixasse o governo e instaurasse a República.
Pelo fato de ter atribuído ao estudo da política um caráter de independência, Maquiavel é considerado por muitos o “Pai da Ciência Política”, embora esta somente tenha se firmado efetivamente como a concebemos hoje, a partir do século XIX.
8. A filosofia Política contratualista
O desenvolvimento das idéias acerca da origem do mundo e das coisas, advindas do distanciamento entre a produção do conhecimento e a moral católica, engendrou a procura por novas explicações acerca do surgimento da sociedade civil. Como surgiram as primeiras sociedades? Foram famílias que cresceram e formaram os primeiros agrupamentos humanos, que mais tarde deram origem às vilas e, posteriormente às cidades? E o Estado? Como surgiu? O Estado antecedeu a sociedade, ou a sociedade veio antes do Estado? Qual o fundamento que explica o surgimento do Estado e, conseqüentemente, por quê as pessoas devem obedecer às ordens emanadas no âmbito do Estado? Como poder-se-ia justificar e legitimar o poder do Estado sobre os indivíduos?
A doutrina contratualista procurou responder a algumas dessas perguntas. Apesar das divergências existentes entre cada autor contratualista, há um liame que “amarra” suas teorias, e que por fim, acaba por caracterizá-los como tal, como contratualistas.
Para os contratualistas, a sociedade antecedeu o Estado. Primeiramente, os indivíduos se uniram em grupos, que eram a princípio desorganizados do ponto de vista do poder político, e onde imperava, diante da ausência de uma autoridade geral e de regras de convivência, a lei do mais forte. Nesse momento, ao surgir um conflito de interesses entre dois ou mais indivíduos, satisfaria sua pretensão aquele que fosse forte o suficiente para subjugar os demais. A esse estágio, os contratualistas chamam de estado de natureza. Vive aí, o homem, em estado de absoluta natureza, em que predomina a força, e a violência é a única forma de solução de conflitos. O estado de natureza caracteriza-se pela insegurança, pela incerteza e pelo medo.
Os contratualistas pregavam que, em determinado momento, desejando os homens instaurar a segurança e a paz social, reuniram-se todos e celebraram um contrato, a que chamaram de contrato social, ou pacto social. Através desse contrato, todos concordaram em abrir mão de parte ou de toda sua liberdade, transferindo-a para um soberano, que teria por incumbência organizar a sociedade e manter a paz, solucionando os conflitos, diminuindo assim as desigualdades relacionadas à força física.
É a partir desse ponto que os autores começam a divergir: cada um acredita em uma forma de governo, e defende um projeto político, com as conseqüências advindas de sua eventual instauração. Dentre os contratualistas, três merecem destaque, embora não sejam os únicos autores importantes: Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau.
Thomas Hobbes
Para Thomas Hobbes (1588-1679), o homem era naturalmente mau, mesquinho, invejoso e egoísta. Seu grande objetivo na vida era obter mais vantagens do que os outros.
Assim, segundo Hobbes, vivendo no estado de natureza, a humanidade tendia a viver sempre em conflito, guerras e disputas entre si. Dessa forma, seria difícil para o homem preservar seu bem maior – a vida, uma vez que, por exemplo, mesmo os mais fortes são vulneráveis quando dormem.
Para acabar com esse clima de “guerra eterna”, os homens se reuniram e celebraram um pacto social, através do qual abdicavam de parte de sua liberdade, em favor do soberano, que passaria a ter plenos poderes para organizar a sociedade e dirimir os conflitos, impondo aos indivíduos a sua decisão.
Hobbes foi, dessa forma, um ferrenho defensor do absolutismo. Para ele, apenas dispondo de plenos poderes (já que fora o único a não participar do pacto), o soberano poderia manter a paz e a ordem na sociedade. Poderia, se julgasse necessário, matar, mentir, não manter a palavra empenhada, etc., sem dever quaisquer satisfações a quem quer que fosse.
John Locke
A importância de John Locke (1632-1704) para o desenvolvimento do pensamento político ocidental parece não ter, à primeira vista, tanto relevo. O que chama a atenção, em verdade, é o fato de Locke haver representado, talvez pela primeira vez, o ideal político de uma classe, naquele momento em franca ascensão no cenário político e econômico europeu: a burguesia.
Locke, avesso ao ideal político hobbesiano, foi o defensor por excelência da manutenção do poder político do Parlamento inglês, em contraposição ao absolutismo do rei.
À semelhança de Hobbes, Locke foi um contratualista. Este, porém, preconizava que o pacto social tinha por fim a proteção da propriedade privada pelo Estado.
Locke acreditava que cabia ao Estado proteger a propriedade privada, a ordem e a paz, e que, na medida em que não o estivesse fazendo a contento, seria perfeitamente possível e lícito desfazer o pacto, já que o mesmo não cumpria sua finalidade.
Jean-Jacques Rousseau
Rousseau (1712-1778) foi um iluminista. Seu pensamento influenciou toda a geração posterior de poetas, romancistas e contistas. Seu ideal político serviu de mote para a Revolução Francesa de 1789.
Rousseau também foi um contratualista. Porém, ao contrário de Hobbes, acreditava que o homem era essencialmente bom: vivendo no “estado de natureza”, não era capaz de fazer o mal, exceto para se defender; sendo tudo acessível a todos, não havia motivo para disputas interpessoais.
Tudo começou a dar errado, segundo Rousseau, quando surgiu a propriedade privada. Sobre como isso se deu, afirma ele:
O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meu e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassinatos, misérias e horrores não poupariam ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: “Defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém!”
Portanto, para Rousseau, os homens seriam naturalmente bons, e seria a sociedade a lhes corromper. Para o iluminista suíço, o estado de natureza seria, portanto, melhor do que a sociedade civil. Não sendo, entretanto, possível voltar ao estado de natureza, busca desenvolver um sistema político que minore as diferenças entre os homens, criadas pela sociedade civil. Rousseau se referia, principalmente, ao falar em “diferenças”, da propriedade privada, para ele, a mãe e rainha de todas as misérias humanas.
Os homens, assim, na concepção rousseauniana, firmaram um pacto, o contrato social, segundo o qual todos governariam juntos, em prol do bem comum. Rousseau pregava, portanto, que o Estado existia não para defender interesses particulares, e sim para defender a “vontade geral”. Isso foi tão enfatizado por Rousseau, que ele chamou a vontade geral, ou seja, a opinião comum de todos os cidadãos de “soberano”. Ao contrário de Hobbes, por exemplo, para quem soberano era o rei.
9. Considerações finais
Como vimos, a Idade Moderna foi um período de grande produção filosófica, como a de Rosseau. Apresentamos para você os principais filósofos denominados modernos e as principais características de seus pensamentos. Conhecemos a obra de Descartes, Kant e dos vários filósofos que estudaram a organização política das sociedades. Agora, é com você. Vale à pena pesquisar e descobrir outros pensadores da Idade Moderna. Eles tiveram um papel decisivo para que surgissem outros filósofos. Trata-se dos filósofos contemporâneos que viveram do século XIX até os nossos dias.