Rousseau: Discurso sobre a origem e os fundamentos das desigualdades entre os homens
setembro 3, 2009
por Adivaldo Sampaio de Oliveira
Introdução
Tendo consciência de que não possuo conhecimento suficiente para criticar um filósofo da grandeza de Rousseau, objetivo apenas realizar reflexões sobre o texto Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens à luz principalmente das apresentações realizadas durante o curso.
A escolha do Discurso deve-se ao fato de acreditar que esta obra, que causou uma reviravolta na vida de Rousseau, é também a porta de entrada para o desenvolvimento de seu pensamento. Após alcançar sucesso e fama com a publicação do Discurso sobre as ciências e as artes, Rousseau voltou a escrever para a Academia de Dijon, porém desta vez sem almejar prêmios, pois como escreveu em Confissões “…não é para obras dessa categoria que são instituídos os prêmios das Academias”.
Rousseau tem a convicção de que o homem é bom por natureza, e em seu primeiro discurso afirma que os costumes degeneram à medida que os povos desenvolvem o gosto pelos estudos e pelas letras, neste novo trabalho procurará mostrar as causas desta degeneração. Segundo Jean Jacques o homem natural é bom, e no isolamento é igual a todo homem. É a partir do momento que resolve viver em sociedade que as desigualdades aparecem.
Desenvolvimento
O Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens é dividido em 3 partes, sobre as quais apresentarei uma síntese a seguir: a primeira é a Dedicatória, seguida do Prefácio e por último o próprio Discurso, .
Dedicatória: O Discurso foi publicado em 1750, período em que Rousseau ainda contava com grande prestígio na sociedade – pois é a partir da publicação desta obra que começa a formar-se “o grande complô” do qual Rousseau sentia-se vítima – portanto sua dedicatória aos cidadãos de Genebra e aos representantes do Estado é natural e aparentemente sincera, pois para ele sua pátria era “…a imagem mais aproximada do que pode ser um Estado virtuoso e feliz, democrático e solidamente estabelecido…” (pág. 21).
A louvação a seu pai e uma exaltação do papel das mulheres dentro da sociedade completam o contido na dedicatória.
Prefácio: Neste item Rousseau nos apresenta o método que irá utilizar para desenvolver o pensamento que servirá de resposta à pergunta da Academia: a priori tem-se que descobrir o que é o homem; “Como conhecer, pois, a origem da desigualdade entre os homens, a não ser começando por conhecer o próprio homem?” (pág. 40). Para realizar tal empreitada é necessário se chegar ao homem natural, e neste ponto surge um paradoxo, pois para se alcançar o homem natural é necessário despir-se do conhecimento do homem civilizado, ou seja, quanto mais utilizamos a razão para entender o homem natural mais distante nos colocamos dele. Para resolver este problema Rousseau propõe uma meditação “…sobre as mais simples realizações da alma humana,” (pág. 44). Através desta meditação Rousseau chega a conclusão de que mesmo antes da razão, dois princípios básicos regem a alma humana: um é o sentimento de autopreservação e o outro é o sentimento de comiseração.
O Discurso – 1a parte: Rousseau inicia o discurso fazendo uma distinção das duas desigualdades existentes: a desigualdade natural ou física e a desigualdade moral ou política. A desigualdade natural (sexo, idade, força, etc.) não é o objetivo dos estudos de Rousseau, pois como o próprio nome já afirma, esta desigualdade tem uma origem natural e não foi ela que submeteu um homem a outro. A origem da desigualdade moral ou política é o que interessa para Rousseau.
Jean-Jacques trata em toda a primeira parte do Discurso sobre o homem natural rebatendo as teses de Hobbes, Buffon e outros que tratam do mesmo assunto, mas que enxergavam o homem natural a partir da visão do homem social (o homem do homem). Partindo de sua teoria dos dois princípios básicos que regem a alma humana, Rousseau descreve o homem natural como um ser solitário, possuidor de um instinto de autopreservação, dotado de sentimento de compaixão por outros de sua espécie, e possuindo a razão apenas potencialmente. O sentimento de comiseração pode ser visto também como instinto ou um mecanismo de autopreservação da espécie.
Rousseau não vê na vida do homem natural, motivos que o levem à vida em sociedade. O homem natural vive o presente, é robusto e bem organizado, apesar de não possuir habilidades específicas, pode aprendê-las todas, é inocente não possuindo noções do bem e do mal e possui duas características que o distingue dos outros animais que são a liberdade e a perfectibilidade. A perfectibilidade é um neologismo criado por Rousseau para exprimir a capacidade que o homem possui de aperfeiçoar-se.
Utilizando como exemplo o estudo sobre a origem da linguagem, Rousseau tenta demonstrar a falta de ligação entre o homem natural e o homem social. Termina esta parte afirmando que a passagem do homem natural ao homem social, que é a origem das desigualdades, não pode ser obra do próprio homem, mas sim de algum fator externo.
O Discurso – 2a parte: Após descrever o homem natural, Rousseau utiliza uma história hipotética para descrever como se deu à passagem do estado natural para o estado social, mostrando desta forma como surgiu a desigualdade entre os homens. A idéia de perfectibilidade está na base de todo esta transformação.
O homem natural tinha como única preocupação sua subsistência, contudo à medida que as dificuldades do meio se apresentavam ele era obrigado a superá-las adquirindo, portanto novos conhecimentos. O homem natural aprendeu a pescar, caçar e por vezes a associar-se a outros homens, tanto para defender-se como para caçar, mas estas associações eram sempre aleatórias. Neste ponto é que surge a primeira “revolução”: a construção de abrigos. O surgimento das casas faz com que o homem natural permaneça mais tempo em um mesmo lugar e na companhia de seus companheiros, nascendo assim as famílias e com elas os “…sentimentos mais ternos que são conhecidos dos homens, o amor conjugal e o amor paterno.”(pág. 88)*. Ao passo que as pessoas passam a viver por mais tempo juntas começa a surgir formas de linguagem. Uma noção precária de propriedade passa a fazer parte deste novo universo. Por motivos de segurança, hábitos alimentares e influência do clima, as famílias passam a conviver próximas surgindo as primeiras comunidades.
Para Rousseau este era o estágio no qual o homem deveria ter parado. Vivendo em sociedade, com poucas necessidades e com condições de atendê-las o homem teria tudo para ser feliz. Mas a perfectibilidade não o permitiu. A pequena comunidade sentada a volta da fogueira cantando e dançando começa a se enxergar. Os homens passam a se compararem: o melhor caçador, o mais forte, o mais bonito, o mais hábil começa a se destacar, e o ser e o parecer tornam-se diferentes. Os homens agrupados ainda sem nenhuma lei ou líder têm como único juiz a sua própria consciência. E cada qual sendo juiz a sua maneira tem inicio o estado de guerra de todos contra todos. Paralelamente surge a agricultura e a metalurgia, evento ao qual Rousseau nomeia de “a grande Revolução”. Com estes eventos surge a divisão do trabalho, a noção de propriedade se enraíza e passa a existir homens ricos e homens pobres, que dependeram doravante uns dos outros. É dentro desta situação caótica que os homens resolveram estabelecer leis para se protegerem; uns para protegerem suas propriedades e outros para se protegerem das arbitrariedades dos mais poderosos.
Rousseau passa a indagar que tipos de governos podem ter surgido. De antemão descarta a possibilidade de um governo despótico ter sido o iniciador do processo, pois o sentimento de liberdade do homem não o permitiria. Jean-Jacques diz que os governantes devem ter surgido de forma eletiva, isto é, se em uma comunidade uma única pessoa era considerada digna e capacitada para governá-la surgiria um estado monárquico; se várias pessoas gozavam ao mesmo tempo de condições para tal surgiria um estado aristocrático, porém se todos as pessoas possuíam qualidades homogêneas e resolvessem administrar conjuntamente surgiria uma democracia. O desvirtuamento dessas formas de governo pela ambição de alguns é que deram origem a estados autoritários e despóticos.
Rousseau conclui mostrando como os acontecimentos citados deram origem as desigualdades entre os homens. O surgimento da propriedade divide os homens entre ricos e pobres, o surgimento de governos divide entre governantes (poderosos) e governados (fracos) e o surgimento de estados despóticos divide os homens entre senhores e escravos.
Conclusão
Como homem de seu tempo (século XVIII), Rousseau procura realizar uma análise científica da sociedade, e a exemplo dos físicos que criaram a teoria dos gases perfeitos, que em natureza não existe, mas servem para o estudo de todos os outros gases através do método de comparação, Rousseau utiliza a “noção de estado de natureza”, que nunca existiu efetivamente, mas que serve de patamar de comparação para verificarmos o quão distante uma sociedade está do estado natural.
Rousseau tem uma preocupação lateral no Discurso que esta ligada a sua religiosidade. Em alguns pontos lembra que o homem natural é uma ficção criada por ele para explicar sua teoria, que tal homem não existiu em época alguma da história, portanto seu texto não estaria desta forma contrariando as escrituras sagradas.
Durante todo o nosso curso, nos foi apresentado um Rousseau controverso, polêmico, uma pessoa que nasceu protestante, converteu-se ao catolicismo e mais tarde retorna ao protestantismo; um autor de peças teatrais que combate o teatro; um crítico dos romances que escreve uma obra como Julia ou A Nova Heloísa. Contudo ao avaliar sua obra e teoria, o que se vê é muita coerência. No Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens Rousseau nos mostra um problema – a degeneração social provocada pelo distanciamento que o homem social está do homem natural. No Contrato Social ele nos apresenta uma solução – já que não podemos viver como o homem natural, pois a evolução da sociedade é inevitável (perfectibilidade), que constituamos uma sociedade harmoniosa, que tenha como ponto de partida uma relação entre governantes e governados baseada na liberdade. E em Emilio Rousseau nos mostra como chegar a tal sociedade – através da educação por um método bem específico que deve formar cidadãos livres. A educação de Emílio visa a construção do governante ideal, resolvendo um dos problemas da sociedade cujos vícios “…não pertencem tanto ao homem, mas fundamentalmente ao homem mal governado.”(pág. 8).
Bibliografia:
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens Editora Universidade de Brasília – Brasília/DF; Editora Ática – São Paulo/SP – 1989.
Por que Filosofia?
março 26, 2009

Nascemos já inseridos em um contexto que não depende de nós. Cabe ao filósofo refletir e considerar esse contexto, e como o homem se insere nele, pensar o rumo que as coisas tomam. É apenas na filosofia que se formulam novas formas de compreender a realidade, sem o que nos encontramos numa situação em que apenas se reproduz mecanicamente padrões pré estabelecidos. A ciência não faz mais do que levantar dados e produzir técnicas que aceleram o próprio processo técnico-científico. As religiões oferecem a comodidade de respostas prontas para consolar corações aflitos que não suportam a visão dos abismos insondáveis. Sem o filósofo a humanidade caminha no escuro sem considerar se caminha para frente ou em círculos. Sem uma reflexão cuidadosa que procure entender o mundo e a condição humana nossas vidas serão como que engrenagens em um mecanismo que desconhecemos… e perpetuamos.
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Publicado por Guto no site http://vertigempeloverbo.blogspot.com/
O que é Filosofia, professor? E para que serve?
março 23, 2009

(Prof. Dr. Delamar José Volpato Dutra)
A Filosofia é um ramo do conhecimento que pode ser caracterizado de três modos: seja pelos conteúdos ou temas tratados, seja pela função que exerce na cultura, seja pela forma como trata tais temas. Com relação aos conteúdos, contemporaneamente, a Filosofia trata de conceitos tais como bem, beleza, justiça, verdade. Mas, nem sempre a Filosofia tratou de temas selecionados, como os indicados acima. No começo, na Grécia, a Filosofia tratava de todos os temas, já que até o séc. XIX não havia uma separação entre ciência e filosofia. Assim, na Grécia, a Filosofia incorporava todo o saber. No entanto, a Filosofia inaugurou um modo novo de tratamento dos temas a que passa a se dedicar, determinando uma mudança na forma de conhecimento do mundo até então vigente. Isto pode ser verificado a partir de uma análise da assim considerada primeira proposição filosófica.
Se dermos crédito a Nietzsche, a primeira proposição filosófica foi aquela enunciada por Tales, a saber, que a água é o princípio de todas as coisas [Aristóteles. Metafísica, I, 3].
Cabe perguntar o que haveria de filosófico na proposição de Tales. Muitos ensaiaram uma resposta a esta questão. Hegel, por exemplo, afirma: “com ela a Filosofia começa, porque através dela chega à consciência de que o um é a essência, o verdadeiro, o único que é em si e para si. Começa aqui um distanciar-se daquilo que é a nossa percepção sensível”. Segundo Hegel, o filosófico aqui é o encontro do universal, a água, ou seja, um único como verdadeiro. Nietzsche, por sua vez, afirma:
“a filosofia grega parece começar com uma idéia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matiz de todas as coisas. Será mesmo necessário deter-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; e, enfim, em terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de crisália [sic], está contido o pensamento: ‘Tudo é um’. A razão citada em primeiro lugar deixa Tales ainda em comunidade com os religiosos e supersticiosos, a segunda o tira dessa sociedade e no-lo mostra como investigador da natureza, mas, em virtude da terceira, Tales se torna o primeiro filósofo grego”.
O importante é a estrutura racional de tratamento das questões. Nietzsche analisa esse texto, não sem crítica, e remarca a violência tirânica como essa frase trata toda a empiria, mostrando que com essa frase se pode aprender como procedeu toda a filosofia, indo, sempre, para além da experiência.
A Filosofia representa, nessa perspectiva, a passagem do mito para o logos. No pensamento mítico, a natureza é possuída por forças anímicas. O homem, para dominar a natureza, apela a rituais apaziguadores. O homem, portanto, é uma vítima do processo, buscando dominar a natureza por um modo que não depende dele, já que esta é concebida como portadora de vontade. Por isso, essa passagem do mito à razão representa um passo emancipador, na medida em que libera o homem desse mundo mágico.
“De um sistema de explicações de tipo genético que faz homens e coisas nascerem biologicamente de deuses e forças divinas, como ocorre no mito, passa-se a buscar explicações nas próprias coisas, entre as quais passa a existir um laço de causalidade e constâncias de tipo geométrico [...] Na visão que os mitos fornecem da realidade [...] fenômenos naturais, astros, água, sol, terra, etc., são deuses cujos desígnios escapam aos homens; são, portanto, potências arbitrárias e até certo ponto inelutáveis”.
A idéia de uma arqué, que tem sentido amplo em grego, indo desde princípio, origem, até destino, porta uma estrutura de pensamento que a diferencia do modo de pensar anterior, mítico. Com Nietzsche, pode-se concluir que o logos da metafísica ocidental visa desde o princípio à dominação do mundo e de si. Se atentarmos para a estrutura de pensamento presente no nascimento da Filosofia, podemos dizer que seu logos engendrou, muitos anos depois, o conhecimento científico. Assim, a estrutura presente na idéia de átomo é mesma que temos, na ciência atual, com ideia de partículas. Ou seja, a consideração de que há um elemento mínimo na origem de tudo. A tabela periódica também pode ser considerada uma sofisticação da idéia filosófica da combinatória dos quatro elementos: ar, terra, fogo, água, da qual tanto tratou a filosofia eleática.
Portanto, em seu início, a Filosofia pode ser considerada como uma espécie de saber geral, omniabrangente. Um tal saber, hoje, haja vista os desenvolvimentos da ciência, é impossível de ser atingido pelo filósofo.
Marley e eu – resenha
março 15, 2009
Por Caroline de Brito M. de Souza
Título do livro: Marley e eu – vida e o amor ao lado do pior cão do mundo.
Autor: John Grogan
País de origem: E.U.A
A história gira em torno de Marley, um cachorro labrador, meio maluco e neurótico, que pesava 44 quilos. O jornalista e escritor estadunidense John Grogan teve como base para o livro uma história real.
Marley era muito agitado, atrapalhado e comilão. Também furtava comida até das crianças. Mas a sua família o amava assim mesmo. Ele os ensinou o que realmente importa na vida. Apesar da bagunça e desobediência ele tinha um amor incondicional por sua família.
Em minha opinião, o amor supera crises, problemas e até doenças. O leitor consegue adentrar a história, pois ela é envolvente. Eu mesma consegui maior aproximação com o meu cachorro Duck. Apenas ao abanar o rabo ele me faz feliz.
Esse foi mais um livro pelo qual eu me apaixonei. Foram 365 páginas que me tornaram interessada por leitura. Nunca pensei que um cachorro pudesse revelar o lado bom e positivo da vida. Indico a todos que leiam.
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Caroline de Brito M. de Souza tem 14 anos e é aluna do primeiro ano do Ensino Médio da Escola Estadual Antônio Alcântara Machado, localizada em São Paulo.
Afinal, o que é filosofia?
março 13, 2009

Foto de Rick Van Pelt
Por Edilson Pantoja (Belém, PA)
A palavra filosofia tem origem grega. É formada a partir da junção dos termos philia e sophia, o que nos dá em português algo como amizade pela sabedoria, amor pelo conhecimento. Interessante, não? E se pensarmos que amar implica buscar (por exemplo: quando vocês ficam a fim de alguém, não buscam conquistá-lo (a) e mantê-lo (a) conquistado (a)?), então teremos que a coisa chamada Filosofia é, enquanto “amor pelo conhecimento”, uma busca pelo conhecimento.
E embora não sirva como definição completa da Filosofia, esta imagem é realmente interessante! Ela nos dá alguma noção da natureza da Filosofia e do filosofar. Ela nos diz que filosofar é buscar conhecimento. Mas, observem: apesar da imagem nos dar uma noção bacana, ela não diz tudo o que a filosofia realmente é. Pois buscar o conhecimento não significa buscar qualquer conhecimento.
Assim como as garotas sonham encontrar um dia o seu “príncipe encantado”, isto é, assim como elas têm um ideal do cara perfeito, e de olho nesse ideal descartam os carinhas abusados, os “lisos”, os malandros, etc., ou seja, aqueles que não se encaixam no perfil ideal, também a filosofia tem um ideal de conhecimento. O conhecimento que a filosofia busca é apenas o conhecimento racional: aquele que satisfaça as exigências da razão.
Pois é, assim como as garotas são exigentes, a razão, faculdade responsável em nós pelo ato de pensar e conhecer criticamente, também é um bocado exigente. Ela não aceita qualquer verdade sem, antes, examinar criteriosamente. Faculdade profundamente crítica, a razão primeiro desconfia. Ela submete as verdades a rigoroso teste: o teste da dúvida. E só toma algo como verdadeiro se este algo passar no teste. Passar no teste significa satisfazer a todos os princípios racionais. Assim, se alguma verdade não passa no teste ou se se recusa a fazê-lo, é descartada como falsa ou dogmática.
Exemplos de “verdades” que costumam não passar no teste ou se recusam a fazê-lo: aquelas cujo fundamento exclusivo é a fé, os sentidos, o hábito, a não-reflexão. As verdades que recusam submeter-se ao teste da razão são denominadas dogmáticas. Um dogma é, pois, uma verdade concebida como absoluta, inquestionável. É próprio de todo dogma desejar a inércia, a morte do pensamento crítico.
Todo dogma se constitui adversário do pensamento racional. Por sua vez, as filosofias, na medida que criticam a pretensão de verdade contida naquelas visões de mundo, deseja também se constituir como visão de mundo, como palavra mais autorizada e verdadeira, porque racional, da realidade. E nisto há outro sério risco para o pensamento. É que a mesma vontade de verdade que alimenta a busca filosófica, contém, simultaneamente, uma vontade de domínio: cada filósofo elabora sua filosofia com a pretensão de que ela, por ser verdadeira, encerre a discussão sobre o assunto ali tratado. Pretende que ela seja a última palavra sobre o assunto. E assim, tal filosofia, que se originou com base num diálogo travado com filosofias que lhe antecederam, visa não apenas criticá-las, mas, no fim, superá-las. Aquele diálogo é, pois, expressão de um jogo de forças.
Ora, é justamente nesta vontade de domínio, importantíssima para o progresso do pensamento, que se oculta o maior risco para o pensamento filosófico. É o que pode levá-lo a também se tornar dogmático, isto é, a ser anti-filosófico.
Contudo, embora a Filosofia (com “F” maiúsculo) se constitua com base nas filosofias que cada filósofo em seu tempo elaborou, ela não se reduz a nenhuma delas. Ao contrário, expressa o movimento geral e radical do pensamento enquanto ideal de crítica. Assim, embora historicamente limitada pelas condições de cada época e de cada pensador, a Filosofia está, enquanto ideal de crítica e “amor pelo conhecimento”, sempre posta numa relação de negação com seu tempo, sempre inoportuna, sempre indesejada pelos poderes estabelecidos, quaisquer que sejam eles.
Interpelações sobre a pequena Maísa (artigo)
março 13, 2009
Por Rudinei BorgesA caixa de Pandora – mito
fevereiro 19, 2009

Zeus – o deus supremo da mitologia grega – é fruto de uma complicada teogonia que se assemelha à genealogia humana. Bravo e vingativo, o deus dos gregos casou-se inúmeras vezes gerando uma sucessão de deuses menores: Apolo, Hebe, Hermes, as Musas, etc.
Diz-se do estranho chefe do Olimpo que havia ódio em seu coração e que tinha prazer em castigar os homens. E que certa vez, para vingar-se de certo humano de nome Prometeu que roubara uma faísca do sol para com ela iluminar a inteligência humana, o mal humorado superintendente celeste resolve castigá-los fazendo-os perder-se para sempre por meio de uma mulher extremamente bela, detentora de todos os dons, Pandora, a primeira mulher!
Ela é criada e enviada para Epimeteu (o que vê depois), embora Prometeu (o previdente) houvesse aconselhado seu irmão a não aceitar nenhum presente de Zeus de quem desconfiava muito. Ela traz consigo do Olimpo um presente de núpcias para Epimeteu: uma arca de ouro hermeticamente fechada.
Segundo Hesíodo, o poeta camponês, Pandora teria aberto a caixa levada pela curiosidade feminina de onde saem todas as desgraças e calamidades para os homens que viviam tranqüilos e felizes até então. Ao fechá-la, depois, rapidamente, conseguiu prender em seu interior a esperança que por séculos ficaria encerrada como uma promessa de retorno aos felizes e ditosos tempos da infância da espécie humana sobre a Terra.
A curiosa lenda traz consigo muitos aspectos interessantes relacionados com outras lendas e crendices que fazem parte de outras culturas e com muitos preconceitos que até hoje existem.
Sobre a curiosidade da primeira mulher, que muito tem a ver com a indiscrição (e que não é somente feminina), e as conseqüências desastrosas de um defeito tão generalizado, pode-se dizer que na história real do ser humano essa curiosidade transformou-se num terrível defeito que tem causado muitas desgraças e calamidades. A curiosidade conduz ao intrometimento, à indiscrição, à superficialidade, à vulgaridade, ao efêmero. Compreensível no homem pré-histórico e nas crianças, que de certa forma reproduzem a evolução da espécie desde os primeiros tempos, e também nos homens de ciência em suas investigações, é inaceitável para o homem de hoje quando o torna distante de si mesmo, atento a tudo quanto ocorre ao seu redor, mas alheio ao que ocorre com ele próprio, com sua própria pessoa.
O mito de Pandora pode nos levar a muitas conclusões: desde a inutilidade de um deus vingativo até a necessidade humana de transcender estados inferiores de evolução, passando, também, pela necessidade de rever os preconceitos que existem em relação à mulher cuja graça e beleza não poderia nunca ser o invólucro do pecado e da desgraça especialmente encomendados por um Zeus duvidoso.
A esperança, providencialmente encerrada na caixa de Pandora, residiria na possibilidade da superação das condições humanas a partir da evolução pessoal de cada indivíduo que sentisse a necessidade de construir um mundo melhor para si mesmo e para a humanidade do futuro.
Martin Buber e a Filosofia do Diálogo
novembro 9, 2008
Por Rudinei Borges
É inegável a relevante contribuição de Martin Buber para a Filosofia Contemporânea, como também a atualidade de sua obra. Encontramos nele um pensamento com profundidade tão sagaz que é inevitável não considerá-lo original a uma Filosofia, cuja preocupação central é o ser humano, a Antropologia Filosófica. O nosso filósofo fundamentou e desenvolveu com pertinência _ em seus vários livros e, principalmente, em Eu e Tu _, acepções como princípio dialógico, encontro, entre, palavra-princípio e interhumano. E mesmo reconhecendo as influências recebidas de outros filósofos, o seu pensamento é possuidor de um élan particular.
A Filosofia do Diálogo de Buber evoluiu do seu notável interesse pelas questões religiosas. Influenciado pelo Hassidismo _ cuja idéia mais importante afirma que Deus faz morada no ser humano, ou seja, dialoga com sua criação _, o filósofo austríaco-judeu utilizou o conceito de relação para designar aquilo que, de essencial, acontece entre os seres humanos e entre o homem e Deus. Entretanto, o cerne do pensamento buberiano esteve direcionado mais precisamente ao problema do homem como ser de relação, como ser aberto ao diálogo com o Tu.
Em sua análise a respeito da problemática do homem, Buber enfrentou a atitude do individualismo e do coletivismo, afirmando que o primeiro só entende uma parte do homem e o segundo entende o homem só como uma parte. Para ele nenhum dos dois alcança a totalidade. O individualismo vê o homem em relação consigo mesmo, e o coletivismo nem vê o homem, pois vê apenas a “sociedade”. O primeiro distorce o rosto do homem, o segundo o mascara. Consoante o nosso filósofo, ambos são a expressão e conclusão da união do abandono cósmico e social, do medo do universo e da vida, que tem por resultado uma constituição existencial de solidão tal como nunca existiu antes.
Mas, para Buber, somente quando o indivíduo conhece o outro em toda a sua alteridade como a si próprio, como homem, experiência a partir da qual irrompe na direção do outro, conseguirá romper sua solidão, em um encontro estrito e transformador. Ele insiste que o fato fundamental da existência humana não é nem o indivíduo, como tal, nem agregado como tal. Cada uma dessas categorias, considerada em si, não passa de uma abstração. O indivíduo é um fato da existência, só na medida em que ele se coloca em uma relação viva com outros indivíduos. O que é peculiarmente característico do mundo humano é, antes de tudo, que nele algo acontece entre um ser e outro. A característica existencial do mundo humano é enraizada no voltar de um ser em direção do outro para comunicar-se dentro de uma esfera comum, mas que ao mesmo tempo transcende a esfera especial de cada um. Essa categoria existencial é a categoria relacional do entre, que é estabelecida a partir da existência do homem. É essa categoria primordial da realidade humana.
Para exprimir a realidade, que liga o homem ao homem, Buber criou o termo especial zwischenmenschlich (entre os homens ou interhumano). No interhumano um sujeito se defronta efetivamente com o outro, e nesse confronto, que não é simples experiência psicológica, há uma realidade em que os dois sujeitos convivem. Como enfatizamos, a principal característica dessa esfera é a espontaneidade, em que toda aparência, toda “dissimulação” seria fatal. No interhumano a verdade assume uma dimensão quase corpórea, pois, o homem se comunica com o outro naquilo que eles são. Somente assim a intercomunicação existencial se torna possível, isto é, o diálogo autêntico, em que o outro se afirma como aquilo que realmente é e se confirma em sua natureza de criatura.
No pensamento buberiano a existência do homem emerge do diálogo, do encontro dialógico, da esfera do interhumano. Consoante essa análise, o diálogo determina a palavra como a interação entre homens, trata-se de uma categoria antropológica, porque instaura o desvelar do entre-dois, do Eu e Tu. No diálogo a palavra não é mais logos, puramente anunciador, pois fundamenta a existência; ela vai além da subjetividade, estabelecendo uma dimensão ontológica _ o interhumano. O logos não é simplesmente razão, princípio de ordem, porém em virtude de seu vínculo essencial com a práxis, ele é a palavra responsável pelo desvendar da existência humana como coexistência. O ser humano existe mediante o encontro, a relação.
O homem como ser-ao-mundo não é um ser-em-si, mas essencialmente uma abertura. Ele é abertura graças à palavra originária. O homem instaura o emergir dinâmico de sua existência pela palavra. Como manifestação do si mesmo, o logos torna-se uma abertura ao outro, dia-logos. E somente quem toma a decisão de proferir a palavra da relação, a palavra-princípio Eu-Tu, poderá fundar o “nós essencial”, do autêntico interhumano. Aproximação, contatos, experiências e reações comuns definem o social, este implica um estar-um-ao-lado-do-outro, enquanto que proximidade, relação dialógica, responsabilidade, decisão, liberdade, presença no face a face definem o interhumano que é o estar-junto-com-o-outro.
Mas Buber observa na humanidade uma profunda crise, causada por uma ruptura que separa os homens uns dos outros. E isto demonstra a atualidade da Filosofia do Diálogo quando colocada diante da sociedade individualista e consumista do nosso tempo. Consoante Zuben, Buber previu uma nova tarefa que se apresentou ao pensamento humano e aspira à implantação de uma nova dimensão do mundo, a dimensão dialógica no homem (ZUBEN, 2003: 210).
As grandes transformações e os avanços tecnológicos que caracterizaram o século XX trouxeram em seu bojo muitas vantagens e também grandes ameaças. A sociedade contemporânea naufraga em um grande mar de desprovidos, de milhões de miseráveis do sul subdesenvolvido sucumbindo às margens do norte desenvolvido. As injustiças sociais, o desemprego, a violência, a fome, as guerras e os desastres ecológicos, por exemplo, apontam para uma situação degradante. O planeta corre o risco de entrar em colapso.
Inúmeras pesquisas apontam que a doença do início do século XXI é o stress conjugado a depressão, e isto ocorre como conseqüência do enfraquecimento das relações humanas e da “obrigação diária” estabelecida pelo mercado de as pessoas provarem que são competentes. Assistimos atualmente a um processo de enrijecimento gradual do individualismo. Os avanços tecnológicos e o crescimento das cidades têm ocasionado o isolamento das pessoas em detrimento do encontro e do diálogo com o outro. Podemos caracterizar o homem deste início de século como um ser isolado, preocupado consigo e longínquo da realidade em seu torno.
Não queremos, ao apresentar os problemas citados acima, firmar uma acepção pessimista sobre o homem atual, mas enfatizar como ele vem se distanciando de um princípio relevante para sua própria realização enquanto ser humano, a relação. O homem atual restringe-se a proferir a palavra-princípio Eu-Isso, colocando-se diante das coisas em vez de confrontá-las no fluxo da ação recíproca, preferindo um relacionamento unidirecional entre o Eu (egótico) e um objeto manipulável (lsso). Buber, contudo, posicionou-se de maneira radical ao quando analisar a atitude Eu-Isso. Para ele “aquele que vive somente com o Isso não é homem” (BUBER, 1977: 39).
O sujeito humano atinge o seu ser através do “proferir Tu” (Dusagen) e não do “proferir Isso”; em outras palavras, isto significa que o homem atinge o seu ser pela relação. O homem, na relação Eu-Tu, integra-se completamente com o mundo, em uma totalidade caracterizada pelo envolvimento, pela integração dos opostos, desaparecendo as peculiaridades e contradições individuais. “A palavra-princípio Eu-Tu só pode ser proferida pelo ser na sua totalidade. A união e a fusão em um ser total não pode ser realizada por mim e nem pode ser efetivada sem mim. O Eu se realiza na relação com Tu; é tornando Eu que digo Tu” (BUBER, 1977: 13). Depois de escutarmos as palavras de Buber podemos considerar que o homem sem o homem é, por assim dizer, um nada e que o abandono do encontro com o outro poderá conduzir o homem a um abismo cruel.
Para Zuben, na obra buberiana a volta à segurança, o reencontro com o verdadeiro destino que a humanidade descobriu para si serão assegurados (tal é a esperança que alimenta a mensagem buberiana) pela vida em diálogo (ZUBEN, 2003: 210).
Com efeito, é necessário reafirmar a necessidade de estudos consistentes sobre a filosofia de Buber, que a aproxime da atualidade. Analisar a obra de Buber é adentrar um pensamento que _ não sendo uma doutrina, mas por sua sintonia com a vida e com o cotidiano _, é uma chama acesa posta diante dos olhos do homem atual, com intuito de alertá-lo e, até mesmo, de guiá-lo à profundidade daquilo que o torna ser humano, a relação. A relação, em suma, além de ser o princípio (no princípio é a relação) é também a contínua atitude instauradora do ser do homem, o ser humano, o Menschen-sein.
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Referências Bibliográficas
BUBER, Martin. Eu e Tu. Tradução de Newton Aquiles von Zuben. São Paulo: Cortez e Moraes, 1977.
SANTOS, Rudinei Borges. No principio é a relação: encontro e diálogo no pensamento de Martin Buber. 2005. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura Plena em Filosofia). Centro Universitário Assunção/São Paulo.
ZUBEN, Newton Aquiles von. Martin Buber: cumplicidade e diálogo. Bauru: EDUSC, 2003.
Filosofia Medieval
novembro 9, 2008
Por Rudinei Borges
1. Introdução – A Idade Média
Castelos. Torres. Grandes igrejas góticas. Sinos. Mosteiros. Bibliotecas enormes. Padres. Fé e razão. Corpo e alma. Bem e mal. Deus. Estas são as palavras e os cenários da viagem que faremos a um tempo distante, mas que influenciou decisivamente a história da humanidade: a Idade Média e a Filosofia Medieval.
Ao longo do século V d.C., o Império Romano do Ocidente sofreu ataques constantes dos “povos bárbaros”. Do confronto desses povos invasores com os romanos desenvolveu-se uma nova estruturação da vida social européia, que corresponde à Idade Média. O período medieval se estende até fim do Império Romano do oriente, com a queda de Constantinopla, no século XV(1453 d.C.), momento da retomada comercial e do renascimento urbano.
No século IV d. C., Roma foi ameaçada tanto por levas de povos que vinham do norte quanto por um processo de desintegração interna. Em 330, o imperador Constantino, o Grande, transferiu a capital do Império Romano para Constantinopla, cidade que ele próprio tinha fundado às margens do mar Negro. A partir de então, Constantinopla passou a ser conhecida como “a segunda Roma”. No ano de 395 d. C., o Império Romano foi dividido: passou a haver, então, um império Romano do Ocidente, tendo Roma como seu centro, e um Império Romano do Oriente, cuja capital era a nova cidade de Constantinopla. Em 410, Roma foi pilhada por povos bárbaros, e em 476 todo o Império Romano do Ocidente, ruiu. O Império romano do Oriente continuou a existir até 1453, ano em que os turcos tomaram Constantinopla, e desde então a cidade se chama Istambul.
Para alguns estudiosos a Idade Média foi uma longa noite de mil anos. Até hoje as pessoas empregam de modo pejorativo o termo “medieval” para designar rigidez e autoritarismo. No entanto, para outros estudiosos a Idade Média foi um período de mil anos de crescimento. Ao final dessa viagem você decidirá.
No período medieval foi reintroduzido o comércio de trocas. A economia passou a ser marcada pelo chamado feudalismo. Feudalismo significa que grandes latifundiários possuíam as terras nas quais os camponeses tinham que trabalhar a fim de ganhar o seu sustento. A Idade Média é caracterizada por um retorno ao universo rural.
A Igreja Católica (em meio ao esfacelamento do Império Romano) conseguiu manter-se como instituição social. Consolidou sua organização religiosa e difundiu o cristianismo, preservando também, muitos elementos da cultura grega e romana.
Apoiada em sua crescente influência religiosa, a Igreja, passou a exercer importante papel político na sociedade medieval. Desempenhou, às vezes, a função de órgão supranacional, conciliador das elites dominantes, contornado os problemas das rivalidades internas da nobreza feudal. Conquistou, também, vasta riqueza material: tornou-se dona de aproximadamente um terço das áreas cultiváveis da Europa ocidental, numa época em que a terra era a principal base da riqueza.
No aspecto cultural, a Igreja exerceu muita influência, traçando um quadro intelectual em que a fé cristã era o pressuposto da vida espiritual. Essa fé consistia na adesão incondicional às verdades reveladas por Deus aos homens nas Sagradas Escrituras (a Bíblia) e interpretadas segundo a autoridade da Igreja.
A consagração do cristianismo como religião oficial do Império Romano, no ano de 380 d. C., marca o inicio de uma transformação profunda nas formas de pensar do mundo antigo. A teologia (reflexão sobre Deus) torna-se rapidamente no saber supremo (teocentrismo) que todos os filósofos aspiram alcançar. Esta é a razão porque a esmagadora maioria dos filósofos medievais eram teólogos.
2. A Filosofia Medieval
Alguns religiosos desprezavam a filosofia grega, sobretudo porque viam nessa forma de pensamento uma porta aberta para o surgimento de doutrinas contrárias as estabelecidas pela Igreja, em termos de fé, as chamadas heresias. Por outro lado, havia muitos pensadores cristãos que defendiam o conhecimento da filosofia grega, como possibilidade de instrumento a serviço do cristianismo. Conciliado com a fé cristã, o estudo da filosofia grega permitiria à Igreja enfrentar os descrentes e derrotar os hereges com as armas racionais da argumentação lógica. O objetivo era convencer os descrentes, tanto quanto possível, pela razão, para depois fazê-los aceitar a imensidão dos mistérios divinos, somente acessíveis à fé (COTRIM, 2002: 116).
Muitos pensadores afirmam que a Filosofia Medieval Cristã seguiu o caminho que parte da religião bíblica para a sua compreensão conceitual, da revelação para a teologia. Na obra de seus pensadores floresceu um mundo simultaneamente religioso e filosófico (JASPERS, 1960: 154). Para outros não se pode falar com rigor de uma filosofia cristã, se o adjetivo cristão tiver de definir um caráter da filosofia. Só podemos chamar de filosofia cristã à filosofia dos cristãos enquanto tais, isto é, a que está determinada pela atuação cristã de que parte o filósofo (MARÌAS, 2002: 119).
1. São influenciados pelo cristianismo;
2. Para resolver os problemas filosóficos eles retornaram aos pensadores da Grécia Clássica, principalmente Platão e Aristóteles.
A característica fundamental da Filosofia Medieval é a ênfase as questões teológicas como: o dogma da Trindade, a encarnação de Deus-filho, a liberdade e a salvação, a relação entre fé e razão. Vamos conhecer os dois momentos mais importantes da filosofia no período medieval: a patrística e a escolástica.
O período chamado patrística ocorre de meados do século IV ao século VIII d. C. Busca-se na patrística uma reconciliação entre a fé e a razão, sobretudo a partir da interpretação da filosofia de Platão, destaca-se a figura de Santo Agostinho.
O período chamado escolástica ocorre do século IX ao XVI d. C. Busca-se na escolástica uma sistematização da filosofia cristã, sobretudo a partir da interpretação da filosofia de Aristóteles, destaca-se a figura de Santo Tomás de Aquino.
3. A Patrística
Com o desenvolvimento do cristianismo, tornou-se necessário explicar seus preceitos às autoridades romanas e ao povo em geral. A igreja Católica sabia que esses preceitos não podiam ser impostos pela força. Tinham que ser apresentados de modo convincente (COTRIM, 2002: 118).
Os primeiros padres se empenharam na elaboração de inúmeros textos sobre a fé e a revelação cristãs. O conjunto desses textos ficou conhecido como patrística por terem sido escritos principalmente pelos grandes padres da igreja (COTRIM, 2002: 118).
Em verdade, a patrística é o esforço cristão de incorporar a filosofia grega para servir-se dela na defesa contra os ataques que lhe dirigiam. Assim, os padres da Igreja tentaram, em primeiro lugar, uma formulação intelectual dos dogmas, e, em segundo lugar, a uma discussão racional com os seus inimigos heréticos ou pagãos (MARÌAS, 2002: 119).
É relevante lembrar que dogmas são os pontos fundamentais e indiscutíveis de uma doutrina religiosa e que heréticos são os que se mostram contrários aos dogmas (AURÉLIO, 2001: 244; 362).
O projeto de conciliação entre o cristianismo e o pensamento grego teve como principal expoente o padre Agostinho, posteriormente consagrado santo pela igreja.
4. Santo Agostinho
Santo Agostinho foi religioso, teólogo e filósofo cristão. Ele sistematizou a doutrina cristã influenciado pela filosofia de Platão.
“O último dos antigos” e o “primeiro dos modernos”, santo Agostinho foi o primeiro filósofo a refletir sobre o sentido da história, mas tornou-se acima de tudo o arquiteto do projeto intelectual da Igreja Católica.
Aurélio Agostinho, em latim Aurelius Augustinus, nasceu em Tagaste, atualmente Suk Ahras, na Argélia, em 13 de novembro de 354, filho de Patrício, homem pagão e de posses, que no final da vida se converteu, e da cristã Mônica, mais tarde considerada santa. Agostinho estudou retórica em Cartago, onde aos 17 anos passou a viver com uma concubina, da qual teve um filho, Adeodato. A leitura do Hortensius, de Cícero, despertou-o para a filosofia. Aderiu, nessa época, ao maniqueísmo, doutrina de que logo se afastou. O maniqueísmo é uma doutrina persa que afirmava ser o universo dominado por dois grandes princípios opostos, o bem e o mal, mantendo uma incessante luta entre si.
Viajou para Roma e Milão, entrando em contato com o neoplatonismo, movimento filosófico do período Greco-romano, desenvolvido por pensadores inspirados por Platão, que se espalhou por diversas cidades do Império Romano. Sendo marcado por sentimentos religiosos e crenças místicas. Em 384 começou a ensinar retórica em Milão, onde conheceu santo Ambrósio, bispo da cidade.
Cada vez mais interessado pelo cristianismo, Agostinho viveu longo conflito interior, voltou-se para o estudo dos filósofos neoplatônicos, renunciou aos prazeres físicos e em 387 foi batizado por santo Ambrósio, junto com o filho Adeodato. Tomado pelo ideais cristãs, decidiu fundar um mosteiro em Tagaste, onde nascera. Nessa época perdeu a mãe e, pouco depois, o filho. Ordenado padre em 391 em Hipona, pequeno porto do Mediterrâneo, também na atual Argélia, em 395 tornou-se bispo-coadjutor, passando a titular com a morte do bispo diocesano Valério. Não tardou para que fundasse uma comunidade religiosa nas dependências da catedral.
Em sua vida e em sua obra, Santo Agostinho testemunha acontecimentos decisivos da história universal, com o fim do Império Romano e da antiguidade clássica. O poderoso estado que durante meio milênio dominara a Europa estava a esfacelar-se em lutas internas e sob o ataque dos bárbaros. Em 410 Santo Agostinho viu a invasão de Roma e, pouco antes de morrer, presenciou o cerco de Hipona. Nesse clima, em que cismas e heresias eram das poucas coisas a prosperar, ele estudou, ensinou e escreveu suas obras.
5. Pensamentos de Santo Agostinho
As obras mais importantes de Santo Agostinho são:
Da Trindade, sistematização da teologia e filosofia cristãs, divulgada de 400 a 416 em 15 volumes;
Da cidade de Deus, divulgada de 413 a 426, em que são discutidas as questões do bem e do mal, da vida espiritual e material, e a teologia da história;
Confissões, sua autobiografia, divulgada por volta de 400; e muitos trabalhos de polêmica (contra as heresias de seu tempo), de catequese e de uso didático, além dos sermões e cartas, em que interpreta minuciosamente passagens das Escrituras.
A alma
Agostinho defendeu a superioridade da alma humana, isto é, a supremacia do espírito sobre o corpo, a matéria.
A alma teria sido criada por Deus para reinar sobre o corpo, para dirigí-lo à prática do bem. O homem pecador, entretanto, utilizando-se do livre arbítrio, costuma inverter essa relação, fazendo o corpo assumir o governo da alma. Provoca, com isso, a submissão do espírito à matéria, equivalente à subordinação do eterno ao transitório. Mas a verdadeira liberdade estaria na harmonia das relações humanas com a vontade de deus. Ser livre é servir a Deus, pois o prazer de pecar é a escravidão.
A liberdade
De acordo com Agostinho, a liberdade humana é própria da vontade e não da razão. E é nisso que reside a fonte do pecado. O indivíduo peca porque usa de seu livre-arbítrio para satisfazer sua vontade, mesmo sabendo que tal atitude é pecaminosa.
A razão e a fé
Agostinho também discutiu a diferença existente entre fé cristã e razão, afirmando que a fé nos faz crer em coisas que nem sempre entendemos pela razão. Ele afirmou:
Creio em tudo o que entendo, mas nem tudo que creio também entendo. Tudo o que compreendo conheço, mas nem tudo que creio conheço.
A interioridade
Agostinho pode ser considerado o primeiro pensador em nossa tradição a desenvolver, possivelmente com base em concepções neoplatônicas, uma noção de interioridade que prenuncia o conceito de subjetividade do pensamento moderno. Encontramos já em seu pensamento a oposição entre interior-exterior e a concepção de que a interioridade é o lugar da verdade, é olhando para a interioridade que o homem conhece a verdade. Por isso, ele no livro Da Trindade ele afirma “no homem interior habita a verdade” (MARCONDES, 2005: 112).
O mal
Agostinho faz uma interessante análise da idéia de mal. Para Deus é imutável e é a plenitude do ser, a perfeição máxima e o bem absoluto. A natureza do mal deve, assim, ser encontrada no conceito absolutamente contrário ao conceito de Deus como ser, ou seja, o não-ser. O mal fica, portanto, destituído de toda substancialidade. Ele seria apenas a privação do bem. O mal não existe, por assim dizer, mas a ausência do bem (PESSANHA, 1999: 19-20).
A cidade de Deus
Uma das mais belas concepções de Santo Agostinho é a da cidade de Deus. Amando-se uns aos outros no amor a Deus, os cristãos, embora vivam nas cidades temporais, constituem os habitantes da eterna cidade de Deus. Na aparência, ela se confunde com as outras, como o povo cristão com os outros povos, mas o sentido da história e sua razão de ser é a construção da cidade de Deus, em toda parte e todo tempo.
6. A escolástica
Além da Patrística de Santo Agostinho, outro movimento filosófico importante na Idade Média foi a Escolástica, que se estende do século IX d.C ao século XVI d. C. Por Escolástica, em sentido restrito, entende-se a especulação filosófico-teológica que se desenvolveu nas escolas desde Carlos Magno até a Renascença. Essas escolas foram a princípio as catedrais e, mais tarde, as primeiras universidades.
No século VIII, Carlos Magno, imperador do sacro Império Romano, organizou o ensino e fundou escolas ligadas às instituições católicas. Com isso, todo o saber guardado nas bibliotecas dos mosteiros passou a ser divulgado. Nessas escolas ensinava-se gramática, retórica, dialética, geometria, aritmética, astronomia e música. (COTRIM, 2002: 122).
Como sistema filosófico e teológico, a escolástica tentou resolver, a partir do dogma religioso e mediante um método especulativo, problemas como a relação entre fé e razão, desejo e pensamento; a oposição entre realismo e nominalismo; e a probabilidade da existência de Deus. A história da escolástica apresenta-se, assim, como a história da razão humana em determinado momento de sua evolução, exprimindo inicialmente a alienação, na sujeição ao dogma; em seguida, a consciência da alienação, na doutrina das duas verdades; e finalmente a negação da alienação (da negação), na ruptura definitiva entre razão e fé, e na afirmação de que o real, em sua totalidade, natureza e história, é racional. Portanto, temos três fases que caracterizam a Escolástica.
Segunda fase: vai do século XII ao início do século XIV d. C. e é caracterizada pela elaboração de grandes sistemas filosóficos, merecendo destaque as obras de São Tomás de Aquino. Nessa fase, considera-se que a harmonização entre fé e razão pode ser parcialmente obtida;
Terceira fase: vai do século XIV até o século XVI d.C. e é caracterizada pela decadência da Escolástica. Afirma-se a diferenças fundamentais entre fé e razão. O grande destaque é o filósofo Guilherme de Ockham.
7. Tomás de Aquino
Dentre os filósofos da Escolástica Tomás de Aquino é considerado o maior deles. Ele elaborou os princípios da doutrina cristã numa síntese filosófica que teve como base o pensamento de Aristóteles, através das traduções do filósofo árabe, Averróis.
Tomás de Aquino afirmava que “se é correto que a verdade cristã ultrapassa as capacidades da razão humana, nem por isso os princípios inatos naturalmente à razão podem estar em contradição com esta verdade sobrenatural”.
Tomás de Aquino nasceu em Nápoles, sul da Itália, em 1226, e faleceu aos 49 anos de idade num convento, em 1274. Ele foi religioso.
Em verdade, Aquino reviveu em grande parte o pensamento do filósofo grego, Aristóteles, com o objetivo de nele buscar os elementos racionais que explicassem os princípios da fé cristã. Mas ele fez uma síntese original da obra aristotélica.
Em seu livro mais famoso, “A Suma Teológica”, ele busca cinco provas para a existência de Deus.
Para Aristóteles tudo que se move é movido por outro ser. Por sua vez, este outro ser, para que se mova, necessita também que seja movido por outro ser. E assim sucessivamente. Se não houvesse um primeiro ser movente, cairíamos num processo indefinido. Logo, conclui Aquino, é necessário chegar a um primeiro ser movente que não seja movido por nenhum outro. Esse ser é Deus.
Todas as coisas brutas, que não possuem inteligência própria, existem na natureza cumprindo uma função, um objetivo, uma finalidade, semelhante à flecha dirigida pelo arqueiro. Devemos admitir, então, que existe um ser inteligente que dirige todas as coisas da natureza para que cumpram seu objetivo. Este ser é Deus, afirmava Aquino.
8. Outros filósofos
Além de Santo Agostinho e Tomás de Aquino, outros filósofos foram fundamentais para o desenvolvimento do pensamento na Idade Média.
9. Guilherme de Ockhan
Guilherme de Ockham, nascido em 1280 e falecido em 1349, proclamou uma distinção absoluta entre fé e razão. De acordo com Ockham, a filosofia não é serva da teologia, e a teologia não pode sequer ser considerada ciência, pois é tão somente um corpo de proposições mantidas não pela coerência racional, mas pela força da fé. Ockham iniciou o método de pesquisa científica moderna. Seu pensamento destacou-se porque apreendeu as transformações de seu tempo: a ruptura entre a Igreja e os nascentes Estados nacionais; a perda da concepção unitária da sociedade humana, que passou a se dividir cada vez mais entre o poder temporal e o poder espiritual; a ruptura entre fé e razão, ocasionada pelo nascente desenvolvimento da razão autônoma, que buscou através da investigação empírica o conhecimento dos fenômenos naturais.
10. Considerações finais
A Filosofia Medieval foi uma freqüente e significante tentativa de explicar a fé cristã, por intermédio da razão característica da filosofia clássica da Grécia, em particular dos grandes filósofos Platão e Aristóteles. Os pensadores medievais imbuíram a filosofia de uma perspectiva ligada à fé. E entre aspectos negativos e positivos a Filosofia medieval foi um período valioso para o itinerário do pensamento filosófico. O questionamento de seus pensadores, como Okham, abriu as portas para outro tempo, em que não mais Deus estava no centro das discussões, porém o homem e a ciência. Trata-se da Filosofia Moderna.
11. Referências bibliográficas
GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
JASPERS, Karl. Introdução ao pensamento filosófico. Tradução de Leônidas Hegenberg e Octanny da Mota. São Paulo: Cultrix, s/d.
MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia. 9º Ed. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 2005.
MARÍAS, Julían. História da filosofia. Porto: Edições Sousa & Almeida, s/d.
SANTO AGOSTINHO. Confissões. 4. Ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987. (Col. Os Pensadores).
Carta aberta de um jovem educador
novembro 9, 2008
Por Rudinei Borges
Meus caros, não formularei argumentos extraordinários. Quero apenas, nesta breve carta, viajar com as palavras e sorrir para uma utopia um tanto perdida.
Minha primeira professora foi a minha mãe. Ela enchia um caderno de vogais e consoantes para que eu pudesse contorná-las, aprendendo assim a manusear o lápis. Mas nesta época ela não havia sequer concluído o colegial. Aliás, este latente e ardoroso amor que tenho dentro do peito pelos significados que a educação desempenha na vida do ser humano vem de minha mãe, uma tocantinense, dona de casa, que trabalhou desde muito cedo para sustentar os filhos. Foram com aquelas mãos calejadas e sofridas que aprendi as primeiras palavras e nunca mais deixei de adentrar este mundo misterioso e encantado, ficando envolto aos livros como se também fosse um. Aquela pequena mulher sem riquezas materiais, sem títulos acadêmicos, aquela senhora anônima, cabloca amazônica, foi ela que me ensinou que ninguém tem o poder de tomar aquilo que aprendemos. Porque para ela aprender é a arte de enriquecer a alma.
E foi com a minha mãe que aprendi a ser poeta, a amar os versos, as rimas e a ler os grandes escritores. Foi ela (que mesmo sem entendê-los) trouxe para mim os versos dos românticos Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela. E trouxe Mário de Andrade, Drummond, Cecília Meirelles, Bandeira, Gullar e Pessoa para sentar nos tamboretes de nossa humilde sala. E somente depois andei com minhas próprias pernas à procura das casas de Hilda Hilst, Eliot, Rimbaud, Lorca, Rilke, Tagore, Sá Carneiro e Pound. E mais tarde ainda descobri Nietzsche, Kafka, Sartre, Camus, Ionesco e Beckett. Foi, então, que comecei a me interessar por todos os que são capazes de desnudar o absurdo da existência humana. Aí passei a amar a amazônica triste da obra densa e lírica do romancista Dalcídio Jurandir. Minha primeira professora foi a minha mãe.
E, hoje, quando vou à sala de aula, para edificar aos pouquinhos o exercício de filosofar com os alunos, sinto em mim e neles uma ausência (um tanto atormentadora) desse amor desafiador pela educação. Os nossos tempos são de desânimo e de melancolia. E, decerto, quem me acusar de pessimismo também concordará. Há um receio quase envergonhado de tentar. Uma passividade amarga reina entre a lousa e as paredes, enquanto vemos pela janela os automóveis luzindo na avenida. Aprender se tornou uma desgraçada obrigação para sobreviver aos espectros assustadores do capitalismo. Aprender se tornou um templo pragmático, não um campo aberto onde o homem voa num intenso desejo de encontrar a liberdade. E, destarte, creio que educar continua sendo um ato de libertação: do educador e do educando. Das pessoas, enfim.
No meu primeiro ano como educador encontrei os rostos mais diversos e controversos. E silenciosamente perguntava: o que eles querem, meu Deus? O querem estes rostos? Acompanhei crianças da classe média, adolescentes pobres de uma escola pública e alguns adultos. Entendi que aprender no meu país depende, em boa parte, das condições financeiras.
Os professores de maior experiência, ao contrário do que pensei a princípio, foram amigos animadores. Eles tinham os rostos marcados por certo humanismo. Mesmo com os desacertos encontrados na profissão eles estavam lá com seus livros, as caixinhas de giz, o avental branco e um sorriso (que por vezes disfarçava as dores daquela sina diária).
Porém, educar numa grande metrópole (em particular) é está preparado para a guerra, porque a escola (a pública em particular) deixou de ser um espaço para o aprendizado. Não que não queiramos. A escola (uma parte pequena da enorme sociedade) não é capaz (sozinha) de frear a violência. Por vezes, tenho a impressão que a escola na sociedade brasileira é um escombro. Talvez o molde da educação atual não corresponda, deveras, aos anseios dos educandos, nem preencha as suas misérias. O homem do nosso tempo carece de um ninho onde possa respirar com alívio. O vazio de nossos dias é o vazio da educação e de nossas escolas. Mas entre concreto e poeira algumas pétalas germinam anunciando a rosa futura. É preciso ser forte. E é preciso também olhar para as possibilidades do novo.
Não. Minha carta não é uma profecia do fracasso. No entanto, faltam-me idéias e palavras para apontar soluções. O que vejo, no entanto, são milhares de pessoas e políticos com as soluções na ponta do lápis. A verdade é que há bastante tempo a educação é um empecilho para os governantes desse país, enquanto a sociedade assiste desinteressada aos acontecimentos. A educação continuará sendo um item desnecessário em nossa lista de compras, a não ser que a abracemos como bem imprescindível ao nosso desenvolvimento como povo. A não ser que reconheçamos sua real relevância.
No fim das contas, meus caros, devo dizer com sinceridade: quando o silêncio domina a sala de aula, lembro de minha mãe e recito uns versos dos poetas que gosto ou conto a história de algum filósofo. Estou lá. A esperança, este frenesi cálido, é o que nos resta. Não podemos desistir.
A terna idiotice – artigo
novembro 9, 2008
Por Rudinei Borges
(Artigo publicado no livro Bate-papo no gramado – Filosofia: razão e emoção. Editora In House, 2008).
Os brasileiros gostam demasiadamente de futebol. Essa é uma verdade. Aliás, nossa maior verdade. Por isso, os brasileiros sabem na ponta da língua nomes como Pelé, Garrincha, Zico e Romário. Eles talvez (e aqui caímos num preconceito medonho) não saberão nomes como René Descartes e John Locke, nem de outros filósofos iluministas. Por que os brasileiros recordariam que a grandeza do homem é ser ele uma ponte, e não uma meta ou que se pode amar no homem o fato de ser ele uma passagem, como defende Nietzsche em Assim falou Zaratustra? Os brasileiros sabem o que é pênalti e gol e escanteio. E sabem (mesmo se falta comida na mesa) que aquele jogador famoso ganha milhões.
Os brasileiros gostam demasiadamente de futebol. E nosso grande mérito é uma bola dourada trazida por homens suados, brasileiros como nós. (Não, as brasileiras não foram feitas para um esporte tão brutal). De fato, o futebol é uma porta aberta ao sublime. Ridículos? Ridículos são aqueles que querem refutar a beleza dessa paixão nacional – estes escritores que nunca publicaram.
Trata-se, entretanto, de uma verdade (a nossa pobre verdade). E nem a epistemologia pode negar: os brasileiros amam futebol como amam a Deus e a pátria e a mãe e a miséria que recebem para manter o corpo em pé. Os brasileiros choram e gritam e riem e matam por futebol. Temos uma causa nobre para tudo isso. Trata-se do grande enigma que Mário e Oswald de Andrade não entenderam. Que os tropicalistas esqueceram. Estava errado Sérgio Buarque de Holanda. Não somos homens cordiais. Somos apaixonados por futebol. Que o resto do mundo desconheça os nossos poetas e cineastas e romancistas e artistas plásticos, mas que conheça os nossos jogadores de futebol.
Nem Theodor Adorno, Walter Benjamim e toda a Escola de Frankfurt entenderiam esse fenômeno absurdo. Porque o futebol é a prova evidente de nossa insuficiência. É um dogma. Perdoem-me, porém não somos os melhores porque temos os melhores jogadores. Isso revela o quão nosso orgulho é superficial. Não podemos limitar toda a cultura de um povo a isso. A seleção brasileira de futebol não é, e nem representa, o povo brasileiro (perdoem-me outra vez). A seleção brasileira é a representação de um Brasil mentiroso e ilusório que querem enfiar goela abaixo como se fôssemos tolos. Não somos.
Engano-me, deveras: Sérgio Buarque estava certo: somos cordiais e o futebol é o antídoto que garante a nossa cordialidade. Ou somos o povo mais criativo da história, porque conseguimos passar por desgraças terríveis com humor e simpatia, porque enganamos com uma elegância invejável. O que somente Vladimir e Estragon, os vagabundos inventados por Samuel Beckett em Esperando Godot, conseguiram.
Os dois personagens de Beckett ficam uma imensidão de horas criando bobagens para passar o tempo enquanto esperam o enigmático Godot, aquele que ninguém sabe quem é nem o que é. Alguns estudiosos afirmam que Godot é uma espécie de deus e outros que é a morte, o que implica numa referência metafórica à existência do homem neste mundo. Ou seja, a vida (a nossa vida) é desprovida de sentido, não uma há objetividade palpável. Assim, temos que inventar joguinhos para que o tempo passe e tudo fique menos cruel.
Diante da monstruosidade denunciada por Beckett podemos chegar a uma consideração: o futebol é um louvável invento. Com esse esporte estamos aptos a suportar a falta de sentido da vida sem nos preocuparmos com a possibilidade do suicídio. Um dia haveremos de encontrar Godot. O encontro com ele é o nosso vil destino. Deveremos encará-lo. O futebol pode ser um bom entretenimento enquanto ele não chega.
Neste aspecto, tudo o que resta é desinteressante (ou não). Sócrates e Aristóteles não nos interessam. E Marx é mesmo um filósofo subversivo. E Hilda Hilst foi uma escritora depressiva que se alojou por anos num sítio distante. Para que criticar esse amor do brasileiro por futebol em detrimento a pouca seriedade com que ele olha a educação no país? Nós lembramos os nomes das modelos bonitas com quem Ronaldo namorou. Nós não lembramos o nome do último deputado federal para quem votamos, menos ainda do último vereador. E quem lembrará deste pequeno artigo que analisa o futebol como uma farsa? O futebol é uma farsa dos governos, das elites, da mídia? Não sei. Todavia, o futebol é um consenso e devemos duvidar do que é consenso, nem que seja para torná-lo mais consenso. Duvidemos (mesmo para passar ou matar o tempo). Há grandes interesses naquilo que é instaurado como verdade.
Bem, em outra peça de Beckett o jogo termina e aí não podemos ficar enganando. Em Fim de partida as nossas medíocres verdades são postas às claras. Quando finda o jogo desligamos a televisão (ou deixamos o estádio) e tudo o que lutamos trabalhosamente para esquecer volta à tona. A nossa humilde pequenez reaparece. Por certo (se formos espertos) guardaremos alguma gotícula de esperança em qualquer coisa estrambótica ou não. A nossa tentativa valeu à pena.
Para além de todas as partidas (de futebol ou não) teremos de enfrentar os espectros reais de nossa existência. Nós homens somos animais espertos e dentre as idiotices que inventamos o futebol, decerto, é a mais terna, a mais branda.
Penso que Ernesto López não gosta de futebol. Perdoe-me, por fim.
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O livro Bate-papo no gramado – Filosofia: razão e emoção foi organizado por Jorge Alves de Oliveira e Márcio Martelli.
Rudinei Borges
novembro 9, 2008
Rudinei Borges nasceu em Itaituba/PA, mas mora na cidade de São Paulo desde 2003. É poeta, formado em Filosofia pelo Centro Universitário Assunção – UNIFAI e mestrando em Filosofia da Educação na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – USP, onde pesquisa o pensamento dialógico de Martin Buber. Atua como professor de Filosofia e cursa Jornalismo na Universidade São Marcos. É co-autor do livro “Bate-papo no gramado – Filosofia: razão e emoção” da editora In House. Seu e-mail para contato é: rudinei_borges@yahoo.com.br







