Carta aberta de um jovem educador

a-porta

Por Rudinei Borges

Meus caros, não formularei argumentos extraordinários. Quero apenas, nesta breve carta, viajar com as palavras e sorrir para uma utopia um tanto perdida.


Minha primeira professora foi a minha mãe. Ela enchia um caderno de vogais e consoantes para que eu pudesse contorná-las, aprendendo assim a manusear o lápis. Mas nesta época ela não havia sequer concluído o colegial. Aliás, este latente e ardoroso amor que tenho dentro do peito pelos significados que a educação desempenha na vida do ser humano vem de minha mãe, uma tocantinense, dona de casa, que trabalhou desde muito cedo para sustentar os filhos. Foram com aquelas mãos calejadas e sofridas que aprendi as primeiras palavras e nunca mais deixei de adentrar este mundo misterioso e encantado, ficando envolto aos livros como se também fosse um. Aquela pequena mulher sem riquezas materiais, sem títulos acadêmicos, aquela senhora anônima, cabloca amazônica, foi ela que me ensinou que ninguém tem o poder de tomar aquilo que aprendemos. Porque para ela aprender é a arte de enriquecer a alma.

 

E foi com a minha mãe que aprendi a ser poeta, a amar os versos, as rimas e a ler os grandes escritores. Foi ela (que mesmo sem entendê-los) trouxe para mim os versos dos românticos Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela. E trouxe Mário de Andrade, Drummond, Cecília Meirelles, Bandeira, Gullar e Pessoa para sentar nos tamboretes de nossa humilde sala. E somente depois andei com minhas próprias pernas à procura das casas de Hilda Hilst, Eliot, Rimbaud, Lorca, Rilke, Tagore, Sá Carneiro e Pound. E mais tarde ainda descobri Nietzsche, Kafka, Sartre, Camus, Ionesco e Beckett. Foi, então, que comecei a me interessar por todos os que são capazes de desnudar o absurdo da existência humana. Aí passei a amar a amazônica triste da obra densa e lírica do romancista Dalcídio Jurandir. Minha primeira professora foi a minha mãe.

 

E, hoje, quando vou à sala de aula, para edificar aos pouquinhos o exercício de filosofar com os alunos, sinto em mim e neles uma ausência (um tanto atormentadora) desse amor desafiador pela educação. Os nossos tempos são de desânimo e de melancolia. E, decerto, quem me acusar de pessimismo também concordará. Há um receio quase envergonhado de tentar. Uma passividade amarga reina entre a lousa e as paredes, enquanto vemos pela janela os automóveis luzindo na avenida. Aprender se tornou uma desgraçada obrigação para sobreviver aos espectros assustadores do capitalismo. Aprender se tornou um templo pragmático, não um campo aberto onde o homem voa num intenso desejo de encontrar a liberdade. E, destarte, creio que educar continua sendo um ato de libertação: do educador e do educando. Das pessoas, enfim.

 

No meu primeiro ano como educador encontrei os rostos mais diversos e controversos. E silenciosamente perguntava: o que eles querem, meu Deus? O querem estes rostos? Acompanhei crianças da classe média, adolescentes pobres de uma escola pública e alguns adultos. Entendi que aprender no meu país depende, em boa parte, das condições financeiras.

 

Os professores de maior experiência, ao contrário do que pensei a princípio, foram amigos animadores. Eles tinham os rostos marcados por certo humanismo. Mesmo com os desacertos encontrados na profissão eles estavam lá com seus livros, as caixinhas de giz, o avental branco e um sorriso (que por vezes disfarçava as dores daquela sina diária).

 

Porém, educar numa grande metrópole (em particular) é está preparado para a guerra, porque a escola (a pública em particular) deixou de ser um espaço para o aprendizado. Não que não queiramos. A escola (uma parte pequena da enorme sociedade) não é capaz (sozinha) de frear a violência. Por vezes, tenho a impressão que a escola na sociedade brasileira é um escombro. Talvez o molde da educação atual não corresponda, deveras, aos anseios dos educandos, nem preencha as suas misérias. O homem do nosso tempo carece de um ninho onde possa respirar com alívio. O vazio de nossos dias é o vazio da educação e de nossas escolas. Mas entre concreto e poeira algumas pétalas germinam anunciando a rosa futura. É preciso ser forte. E é preciso também olhar para as possibilidades do novo.

 

Não. Minha carta não é uma profecia do fracasso. No entanto, faltam-me idéias e palavras para apontar soluções. O que vejo, no entanto, são milhares de pessoas e políticos com as soluções na ponta do lápis. A verdade é que há bastante tempo a educação é um empecilho para os governantes desse país, enquanto a sociedade assiste desinteressada aos acontecimentos. A educação continuará sendo um item desnecessário em nossa lista de compras, a não ser que a abracemos como bem imprescindível ao nosso desenvolvimento como povo. A não ser que reconheçamos sua real relevância.

 

No fim das contas, meus caros, devo dizer com sinceridade: quando o silêncio domina a sala de aula, lembro de minha mãe e recito uns versos dos poetas que gosto ou conto a história de algum filósofo. Estou lá. A esperança, este frenesi cálido, é o que nos resta. Não podemos desistir.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Carta aberta de um jovem educador

  1. Adorei seu site,

    Esta carta foi profunda , mas com certeza realça a realidade da educação do nosso país. Gostaria de ter ideias e mente aberta como a sua , pois sou um jovem sonhador que caminha lentamente com os devaneios da sociedade para uma vida de sabedoria .

    Achei seu site no Google. Estava procurando algum artigo que falasse do livro ”As Origens do Pensamento Grego”. De fato achei, ainda estou lendo o livro ainda é complexo para o que carrego de conhecimento, mas o seu artigo está me ajudando.

    • Rudinei Borges

      Prezado Gabriel,

      Agradeço por suas considerações. Esta carta refere-se a uma experiência. De fato, a educação é um exercício ardoroso. É preciso coragem e paciência.

      Até mais.

      Rudinei Borges

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