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Rousseau: Discurso sobre a origem e os fundamentos das desigualdades entre os homens

por Adivaldo Sampaio de Oliveira


Introdução

Tendo consciência de que não possuo conhecimento suficiente para criticar um filósofo da grandeza de Rousseau, objetivo apenas realizar reflexões sobre o texto Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens à luz principalmente das apresentações realizadas durante o curso.

A escolha do Discurso deve-se ao fato de acreditar que esta obra, que causou uma reviravolta na vida de Rousseau, é também a porta de entrada para o desenvolvimento de seu pensamento. Após alcançar sucesso e fama com a publicação do Discurso sobre as ciências e as artes, Rousseau voltou a escrever para a Academia de Dijon, porém desta vez sem almejar prêmios, pois como escreveu em Confissões “…não é para obras dessa categoria que são instituídos os prêmios das Academias”.

Rousseau tem a convicção de que o homem é bom por natureza, e em seu primeiro discurso afirma que os costumes degeneram à medida que os povos desenvolvem o gosto pelos estudos e pelas letras, neste novo trabalho procurará mostrar as causas desta degeneração. Segundo Jean Jacques o homem natural é bom, e no isolamento é igual a todo homem. É a partir do momento que resolve viver em sociedade que as desigualdades aparecem.

Desenvolvimento

O Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens é dividido em 3 partes, sobre as quais apresentarei uma síntese a seguir: a primeira é a Dedicatória, seguida do Prefácio e por último o próprio Discurso, .

Dedicatória: O Discurso foi publicado em 1750, período em que Rousseau ainda contava com grande prestígio na sociedade – pois é a partir da publicação desta obra que começa a formar-se “o grande complô” do qual Rousseau sentia-se vítima – portanto sua dedicatória aos cidadãos de Genebra e aos representantes do Estado é natural e aparentemente sincera, pois para ele sua pátria era “…a imagem mais aproximada do que pode ser um Estado virtuoso e feliz, democrático e solidamente estabelecido…” (pág. 21).

A louvação a seu pai e uma exaltação do papel das mulheres dentro da sociedade completam o contido na dedicatória.

Prefácio: Neste item Rousseau nos apresenta o método que irá utilizar para desenvolver o pensamento que servirá de resposta à pergunta da Academia: a priori tem-se que descobrir o que é o homem; “Como conhecer, pois, a origem da desigualdade entre os homens, a não ser começando por conhecer o próprio homem?” (pág. 40). Para realizar tal empreitada é necessário se chegar ao homem natural, e neste ponto surge um paradoxo, pois para se alcançar o homem natural é necessário despir-se do conhecimento do homem civilizado, ou seja, quanto mais utilizamos a razão para entender o homem natural mais distante nos colocamos dele. Para resolver este problema Rousseau propõe uma meditação “…sobre as mais simples realizações da alma humana,” (pág. 44). Através desta meditação Rousseau chega a conclusão de que mesmo antes da razão, dois princípios básicos regem a alma humana: um é o sentimento de autopreservação e o outro é o sentimento de comiseração.

O Discurso – 1a parte: Rousseau inicia o discurso fazendo uma distinção das duas desigualdades existentes: a desigualdade natural ou física e a desigualdade moral ou política. A desigualdade natural (sexo, idade, força, etc.) não é o objetivo dos estudos de Rousseau, pois como o próprio nome já afirma, esta desigualdade tem uma origem natural e não foi ela que submeteu um homem a outro. A origem da desigualdade moral ou política é o que interessa para Rousseau.

Jean-Jacques trata em toda a primeira parte do Discurso sobre o homem natural rebatendo as teses de Hobbes, Buffon e outros que tratam do mesmo assunto, mas que enxergavam o homem natural a partir da visão do homem social (o homem do homem). Partindo de sua teoria dos dois princípios básicos que regem a alma humana, Rousseau descreve o homem natural como um ser solitário, possuidor de um instinto de autopreservação, dotado de sentimento de compaixão por outros de sua espécie, e possuindo a razão apenas potencialmente. O sentimento de comiseração pode ser visto também como instinto ou um mecanismo de autopreservação da espécie.

Rousseau não vê na vida do homem natural, motivos que o levem à vida em sociedade. O homem natural vive o presente, é robusto e bem organizado, apesar de não possuir habilidades específicas, pode aprendê-las todas, é inocente não possuindo noções do bem e do mal e possui duas características que o distingue dos outros animais que são a liberdade e a perfectibilidade. A perfectibilidade é um neologismo criado por Rousseau para exprimir a capacidade que o homem possui de aperfeiçoar-se.

Utilizando como exemplo o estudo sobre a origem da linguagem, Rousseau tenta demonstrar a falta de ligação entre o homem natural e o homem social. Termina esta parte afirmando que a passagem do homem natural ao homem social, que é a origem das desigualdades, não pode ser obra do próprio homem, mas sim de algum fator externo.

O Discurso – 2a parte: Após descrever o homem natural, Rousseau utiliza uma história hipotética para descrever como se deu à passagem do estado natural para o estado social, mostrando desta forma como surgiu a desigualdade entre os homens. A idéia de perfectibilidade está na base de todo esta transformação.

O homem natural tinha como única preocupação sua subsistência, contudo à medida que as dificuldades do meio se apresentavam ele era obrigado a superá-las adquirindo, portanto novos conhecimentos. O homem natural aprendeu a pescar, caçar e por vezes a associar-se a outros homens, tanto para defender-se como para caçar, mas estas associações eram sempre aleatórias. Neste ponto é que surge a primeira “revolução”: a construção de abrigos. O surgimento das casas faz com que o homem natural permaneça mais tempo em um mesmo lugar e na companhia de seus companheiros, nascendo assim as famílias e com elas os “…sentimentos mais ternos que são conhecidos dos homens, o amor conjugal e o amor paterno.”(pág. 88)*. Ao passo que as pessoas passam a viver por mais tempo juntas começa a surgir formas de linguagem. Uma noção precária de propriedade passa a fazer parte deste novo universo. Por motivos de segurança, hábitos alimentares e influência do clima, as famílias passam a conviver próximas surgindo as primeiras comunidades.

Para Rousseau este era o estágio no qual o homem deveria ter parado. Vivendo em sociedade, com poucas necessidades e com condições de atendê-las o homem teria tudo para ser feliz. Mas a perfectibilidade não o permitiu. A pequena comunidade sentada a volta da fogueira cantando e dançando começa a se enxergar. Os homens passam a se compararem: o melhor caçador, o mais forte, o mais bonito, o mais hábil começa a se destacar, e o ser e o parecer tornam-se diferentes. Os homens agrupados ainda sem nenhuma lei ou líder têm como único juiz a sua própria consciência. E cada qual sendo juiz a sua maneira tem inicio o estado de guerra de todos contra todos. Paralelamente surge a agricultura e a metalurgia, evento ao qual Rousseau nomeia de “a grande Revolução”. Com estes eventos surge a divisão do trabalho, a noção de propriedade se enraíza e passa a existir homens ricos e homens pobres, que dependeram doravante uns dos outros. É dentro desta situação caótica que os homens resolveram estabelecer leis para se protegerem; uns para protegerem suas propriedades e outros para se protegerem das arbitrariedades dos mais poderosos.

Rousseau passa a indagar que tipos de governos podem ter surgido. De antemão descarta a possibilidade de um governo despótico ter sido o iniciador do processo, pois o sentimento de liberdade do homem não o permitiria. Jean-Jacques diz que os governantes devem ter surgido de forma eletiva, isto é, se em uma comunidade uma única pessoa era considerada digna e capacitada para governá-la surgiria um estado monárquico; se várias pessoas gozavam ao mesmo tempo de condições para tal surgiria um estado aristocrático, porém se todos as pessoas possuíam qualidades homogêneas e resolvessem administrar conjuntamente surgiria uma democracia. O desvirtuamento dessas formas de governo pela ambição de alguns é que deram origem a estados autoritários e despóticos.

Rousseau conclui mostrando como os acontecimentos citados deram origem as desigualdades entre os homens. O surgimento da propriedade divide os homens entre ricos e pobres, o surgimento de governos divide entre governantes (poderosos) e governados (fracos) e o surgimento de estados despóticos divide os homens entre senhores e escravos.

Conclusão

Como homem de seu tempo (século XVIII), Rousseau procura realizar uma análise científica da sociedade, e a exemplo dos físicos que criaram a teoria dos gases perfeitos, que em natureza não existe, mas servem para o estudo de todos os outros gases através do método de comparação, Rousseau utiliza a “noção de estado de natureza”, que nunca existiu efetivamente, mas que serve de patamar de comparação para verificarmos o quão distante uma sociedade está do estado natural.

Rousseau tem uma preocupação lateral no Discurso que esta ligada a sua religiosidade. Em alguns pontos lembra que o homem natural é uma ficção criada por ele para explicar sua teoria, que tal homem não existiu em época alguma da história, portanto seu texto não estaria desta forma contrariando as escrituras sagradas.

Durante todo o nosso curso, nos foi apresentado um Rousseau controverso, polêmico, uma pessoa que nasceu protestante, converteu-se ao catolicismo e mais tarde retorna ao protestantismo; um autor de peças teatrais que combate o teatro; um crítico dos romances que escreve uma obra como Julia ou A Nova Heloísa. Contudo ao avaliar sua obra e teoria, o que se vê é muita coerência. No Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens Rousseau nos mostra um problema – a degeneração social provocada pelo distanciamento que o homem social está do homem natural. No Contrato Social ele nos apresenta uma solução – já que não podemos viver como o homem natural, pois a evolução da sociedade é inevitável (perfectibilidade), que constituamos uma sociedade harmoniosa, que tenha como ponto de partida uma relação entre governantes e governados baseada na liberdade. E em Emilio Rousseau nos mostra como chegar a tal sociedade – através da educação por um método bem específico que deve formar cidadãos livres. A educação de Emílio visa a construção do governante ideal, resolvendo um dos problemas da sociedade cujos vícios “…não pertencem tanto ao homem, mas fundamentalmente ao homem mal governado.”(pág. 8).

Bibliografia:

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens Editora Universidade de Brasília – Brasília/DF; Editora Ática – São Paulo/SP – 1989.

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Por que Filosofia?

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Nascemos já inseridos em um contexto que não depende de nós. Cabe ao filósofo refletir e considerar esse contexto, e como o homem se insere nele, pensar o rumo que as coisas tomam. É apenas na filosofia que se formulam novas formas de compreender a realidade, sem o que nos encontramos numa situação em que apenas se reproduz mecanicamente padrões pré estabelecidos. A ciência não faz mais do que levantar dados e produzir técnicas que aceleram o próprio processo técnico-científico. As religiões oferecem a comodidade de respostas prontas para consolar corações aflitos que não suportam a visão dos abismos insondáveis. Sem o filósofo a humanidade caminha no escuro sem considerar se caminha para frente ou em círculos. Sem uma reflexão cuidadosa que procure entender o mundo e a condição humana nossas vidas serão como que engrenagens em um mecanismo que desconhecemos… e perpetuamos.

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Publicado por Guto no site http://vertigempeloverbo.blogspot.com/

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O que é Filosofia, professor? E para que serve?

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(Prof. Dr. Delamar José Volpato Dutra)

A Filosofia é um ramo do conhecimento que pode ser caracterizado de três modos: seja pelos conteúdos ou temas tratados, seja pela função que exerce na cultura, seja pela forma como trata tais temas. Com relação aos conteúdos, contemporaneamente, a Filosofia trata de conceitos tais como bem, beleza, justiça, verdade. Mas, nem sempre a Filosofia tratou de temas selecionados, como os indicados acima. No começo, na Grécia, a Filosofia tratava de todos os temas, já que até o séc. XIX não havia uma separação entre ciência e filosofia. Assim, na Grécia, a Filosofia incorporava todo o saber. No entanto, a Filosofia inaugurou um modo novo de tratamento dos temas a que passa a se dedicar, determinando uma mudança na forma de conhecimento do mundo até então vigente. Isto pode ser verificado a partir de uma análise da assim considerada primeira proposição filosófica.

Se dermos crédito a Nietzsche, a primeira proposição filosófica foi aquela enunciada por Tales, a saber, que a água é o princípio de todas as coisas [Aristóteles. Metafísica, I, 3].

Cabe perguntar o que haveria de filosófico na proposição de Tales. Muitos ensaiaram uma resposta a esta questão. Hegel, por exemplo, afirma: “com ela a Filosofia começa, porque através dela chega à consciência de que o um é a essência, o verdadeiro, o único que é em si e para si. Começa aqui um distanciar-se daquilo que é a nossa percepção sensível”. Segundo Hegel, o filosófico aqui é o encontro do universal, a água, ou seja, um único como verdadeiro. Nietzsche, por sua vez, afirma:

“a filosofia grega parece começar com uma idéia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matiz de todas as coisas. Será mesmo necessário deter-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; e, enfim, em terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de crisália [sic], está contido o pensamento: ‘Tudo é um’. A razão citada em primeiro lugar deixa Tales ainda em comunidade com os religiosos e supersticiosos, a segunda o tira dessa sociedade e no-lo mostra como investigador da natureza, mas, em virtude da terceira, Tales se torna o primeiro filósofo grego”.

O importante é a estrutura racional de tratamento das questões. Nietzsche analisa esse texto, não sem crítica, e remarca a violência tirânica como essa frase trata toda a empiria, mostrando que com essa frase se pode aprender como procedeu toda a filosofia, indo, sempre, para além da experiência.

A Filosofia representa, nessa perspectiva, a passagem do mito para o logos. No pensamento mítico, a natureza é possuída por forças anímicas. O homem, para dominar a natureza, apela a rituais apaziguadores. O homem, portanto, é uma vítima do processo, buscando dominar a natureza por um modo que não depende dele, já que esta é concebida como portadora de vontade. Por isso, essa passagem do mito à razão representa um passo emancipador, na medida em que libera o homem desse mundo mágico.

“De um sistema de explicações de tipo genético que faz homens e coisas nascerem biologicamente de deuses e forças divinas, como ocorre no mito, passa-se a buscar explicações nas próprias coisas, entre as quais passa a existir um laço de causalidade e constâncias de tipo geométrico […] Na visão que os mitos fornecem da realidade […] fenômenos naturais, astros, água, sol, terra, etc., são deuses cujos desígnios escapam aos homens; são, portanto, potências arbitrárias e até certo ponto inelutáveis”.

A idéia de uma arqué, que tem sentido amplo em grego, indo desde princípio, origem, até destino, porta uma estrutura de pensamento que a diferencia do modo de pensar anterior, mítico. Com Nietzsche, pode-se concluir que o logos da metafísica ocidental visa desde o princípio à dominação do mundo e de si. Se atentarmos para a estrutura de pensamento presente no nascimento da Filosofia, podemos dizer que seu logos engendrou, muitos anos depois, o conhecimento científico. Assim, a estrutura presente na idéia de átomo é mesma que temos, na ciência atual, com ideia de partículas. Ou seja, a consideração de que há um elemento mínimo na origem de tudo. A tabela periódica também pode ser considerada uma sofisticação da idéia filosófica da combinatória dos quatro elementos: ar, terra, fogo, água, da qual tanto tratou a filosofia eleática.

Portanto, em seu início, a Filosofia pode ser considerada como uma espécie de saber geral, omniabrangente. Um tal saber, hoje, haja vista os desenvolvimentos da ciência, é impossível de ser atingido pelo filósofo.

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Marley e eu – resenha

 

Por Caroline de Brito M. de Souza

 

Título do livro: Marley e eu – vida e o amor ao lado do pior cão do mundo.

Autor: John Grogan

País de origem: E.U.A

 

A história gira em torno de Marley, um cachorro labrador, meio maluco e neurótico, que pesava 44 quilos. O jornalista e escritor estadunidense John Grogan teve como base para o livro uma história real.

 

 Marley era muito agitado, atrapalhado e comilão. Também furtava comida até das crianças. Mas a sua família o amava assim mesmo. Ele os ensinou o que realmente importa na vida. Apesar da bagunça e desobediência ele tinha um amor incondicional por sua família.

 

Em minha opinião, o amor supera crises, problemas e até doenças. O leitor consegue adentrar a história, pois ela é envolvente. Eu mesma consegui maior aproximação com o meu cachorro Duck. Apenas ao abanar o rabo ele me faz feliz.

 

Esse foi mais um livro pelo qual eu me apaixonei. Foram 365 páginas que me tornaram interessada por leitura. Nunca pensei que um cachorro pudesse revelar o lado bom e positivo da vida. Indico a todos que leiam.

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Caroline de Brito M. de Souza tem 14 anos e é aluna do primeiro ano do Ensino Médio da Escola Estadual Antônio Alcântara Machado, localizada em São Paulo.

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Afinal, o que é filosofia?

Foto de Rick Van Pelt

Foto de Rick Van Pelt

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por  Edilson Pantoja (Belém, PA)

A palavra filosofia tem origem grega. É formada a partir da junção dos termos philia e sophia, o que nos dá em português algo como amizade pela sabedoria, amor pelo conhecimento. Interessante, não? E se pensarmos que amar implica buscar (por exemplo: quando vocês ficam a fim de alguém, não buscam conquistá-lo (a) e mantê-lo (a) conquistado (a)?), então teremos que a coisa chamada Filosofia é, enquanto “amor pelo conhecimento”, uma busca pelo conhecimento.

E embora não sirva como definição completa da Filosofia, esta imagem é realmente interessante! Ela nos dá alguma noção da natureza da Filosofia e do filosofar. Ela nos diz que filosofar é buscar conhecimento. Mas, observem: apesar da imagem nos dar uma noção bacana, ela não diz tudo o que a filosofia realmente é. Pois buscar o conhecimento não significa buscar qualquer conhecimento.

Assim como as garotas sonham encontrar um dia o seu “príncipe encantado”, isto é, assim como elas têm um ideal do cara perfeito, e de olho nesse ideal descartam os carinhas abusados, os “lisos”, os malandros, etc., ou seja, aqueles que não se encaixam no perfil ideal, também a filosofia tem um ideal de conhecimento. O conhecimento que a filosofia busca é apenas o conhecimento racional: aquele que satisfaça as exigências da razão.

Pois é, assim como as garotas são exigentes, a razão, faculdade responsável em nós pelo ato de pensar e conhecer criticamente, também é um bocado exigente. Ela não aceita qualquer verdade sem, antes, examinar criteriosamente. Faculdade profundamente crítica, a razão primeiro desconfia. Ela submete as verdades a rigoroso teste: o teste da dúvida. E só toma algo como verdadeiro se este algo passar no teste. Passar no teste significa satisfazer a todos os princípios racionais. Assim, se alguma verdade não passa no teste ou se se recusa a fazê-lo, é descartada como falsa ou dogmática.

Exemplos de “verdades” que costumam não passar no teste ou se recusam a fazê-lo: aquelas cujo fundamento exclusivo é a fé, os sentidos, o hábito, a não-reflexão. As verdades que recusam submeter-se ao teste da razão são denominadas dogmáticas. Um dogma é, pois, uma verdade concebida como absoluta, inquestionável. É próprio de todo dogma desejar a inércia, a morte do pensamento crítico.

Todo dogma se constitui adversário do pensamento racional. Por sua vez, as filosofias, na medida que criticam a pretensão de verdade contida naquelas visões de mundo, deseja também se constituir como visão de mundo, como palavra mais autorizada e verdadeira, porque racional, da realidade. E nisto há outro sério risco para o pensamento. É que a mesma vontade de verdade que alimenta a busca filosófica, contém, simultaneamente, uma vontade de domínio: cada filósofo elabora sua filosofia com a pretensão de que ela, por ser verdadeira, encerre a discussão sobre o assunto ali tratado. Pretende que ela seja a última palavra sobre o assunto. E assim, tal filosofia, que se originou com base num diálogo travado com filosofias que lhe antecederam, visa não apenas criticá-las, mas, no fim, superá-las. Aquele diálogo é, pois, expressão de um jogo de forças.

Ora, é justamente nesta vontade de domínio, importantíssima para o progresso do pensamento, que se oculta o maior risco para o pensamento filosófico. É o que pode levá-lo a também se tornar dogmático, isto é, a ser anti-filosófico.

Contudo, embora a Filosofia (com “F” maiúsculo) se constitua com base nas filosofias que cada filósofo em seu tempo elaborou, ela não se reduz a nenhuma delas. Ao contrário, expressa o movimento geral e radical do pensamento enquanto ideal de crítica. Assim, embora historicamente limitada pelas condições de cada época e de cada pensador, a Filosofia está, enquanto ideal de crítica e “amor pelo conhecimento”, sempre posta numa relação de negação com  seu tempo, sempre inoportuna, sempre indesejada pelos poderes estabelecidos, quaisquer que sejam eles.

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Interpelações sobre a pequena Maísa (artigo)

https://filosofiaevertigem.files.wordpress.com/2009/03/maisawww-audienciadetv-blogspot-com.jpg?w=300Por Rudinei Borges
  
Hoje assisti ao programa de Maisa. Não a grande cantora Maysa que, neste ano, foi tema da minissérie da Rede Globo dirigida por Jaime Monjardim e escrita por Manoel Carlos, mas a pequena apresentadora Maisa, que tem um programa infantil no SBT e, às vezes, flerta com Silvio Santos aos domingos. Ela usava um vestidinho branco e os cachos dos cabelos eram impecáveis. Com um sorriso quase constante conversava com os telespectadores por telefone e no fim de cada bloco dançava, de modo desengonçado, dublando uma música cantada em inglês. Tudo certo. É uma criança talentosa.
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Por um momento fiquei indagando como é Maisa em casa e na escola ou como é a sua relação com crianças da mesma idade. Não que isso me interesse de maneira especial. Afinal, Maisa tem pai e mãe que com certeza cuidam do bem estar e do desenvolvimento saudável da filha prodígio. Porém – e em verdade -, esta menina parece-me personificar o fascínio que as crianças exercem na televisão brasileira, em particular em alguns programas musicais de auditório, como o de Raul Gil, onde Maisa começou ainda muito criança. Aliás, depois que ela foi contrata pelo SBT tornou-se quase onipresente na desgostosa programação da emissora. Maisa segura a audiência e até ganhou, num destes sábados, da experiente Xuxa, a “rainha dos baixinhos”. Trata-se de uma marca de sucesso, um fenômeno – como Maisa é chamada em uma propaganda de esponja de aço. E pelo visto o SBT vai explorá-la até que o público não suporte mais vê-la na televisão. Ou não. Não sei ao certo em que vai resultar o caso de Maisa. Talvez ela consiga alongar a sua carreira televisiva por anos, como fez Angélica, que começou cedinho a fazer comerciais e a aparecer nos programas do saudoso Chacrinha. Naquela época a criança já exercia fascínio no telespectador.
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Não sou contrário à aparição de crianças na televisão. Muitas delas em filmes, por exemplo, são capazes de atuações extraordinárias, como o menino que interpretou Pixote no filme de Hector Babenco. Ou Daniel Oliveira que fez uma atuação inesquecível, junto à Fernanda Montenegro, em Central do Brasil de Walter Salles. Até hoje fico encantado com a espontaneidade de Daniel naquele filme de fotografia e roteiro singelos. A televisão, por vezes, abusa da imagem da criança. E, sem exageros, elas parecem um conjunto engraçado de marionetes que agem sob o comando de diretores e apresentadores. E o futuro delas dependerá exatamente do fascínio que exercem, ou seja, da audiência que darão. Se não ganham a simpatia do telespectador logo são deixadas de lado. A fila anda e outras crianças aparecem para tomar o lugar.
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Além do interesse das emissoras há o desejo dos pais de verem os filhos brilharem. O sonhado quinze minutos de fama é disputado por milhares de famílias que vêem nos filhos a esperança de deixar o ostracismo. Elas talvez alcancem aquilo que os pais sempre quiseram, mas não tiveram oportunidade. Neste sentido, a procura pelos programas de calouros é enorme e enorme também é a vontade de conquistar a fama. Questiono-me por que alguns pais inscrevem os seus filhos para cantar quando eles não sabem. As crianças findam por enfrentar situações de vexame diante de platéias lotadas. Não sei se este anseio pelo sucesso é realmente vontade dos filhos ou se é dos pais.
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Uma questão que também me interpela é a situação financeira dessas crianças. Não sei ao certo, no entanto o que vejo é uma maioria vinda de famílias pobres,o que é explorado para a comoção do público. É como se dissessem: “olha, tão pobrezinha, mas tem tanto talento”. Ser pobre é um quesito a mais para que a criança exerça a fascinação. É como um exercício de redenção, pois conceder oportunidade para que ela cante é como livrá-la dos malefícios da pobreza. Os apresentadores se gabam do ato de caridade. São verdadeiros heróis. Não digo que seja uma ação de má-fé. Não me iludo, porém, a ponto de acreditar que a engrenagem televisa não saiba tirar vantagem do que o talento das crianças pode oferecer. Quando Maisa perder o sucesso aparecerá outras Maisas adaptadas a uma nova realidade e a um novo público. Assim, é o ciclo e o itinerário das crianças nas emissoras de TV. Em todo caso, creio que Maisa é uma significativa fonte de renda para a sua família. A qualidade de vida da apresentadora está garantida, enquanto as outras crianças têm que se contentar com o cachê do Raul, que deve ser maior que o Bolsa-família do governo federal.
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Retornando ao começo, perguntou-me quem e como será Maisa no futuro: a imagem que fizeram dela no meio televisivo? Decerto, tanta exposição terá alguma interferência na formação da personalidade da pequena apresentadora, como tem nas outras crianças de outros programas. Agora, resta saber se os pais estão preparados para isso e se as crianças estão prontas para assumir aquilo que, sinceramente, não sei se é a escolha delas.
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Há algo em que devemos concordar: a idéia de sucesso e de fama é uma construção social. Nenhuma criança nasce com o estranho sonho de fazer sucesso, de ser amado e aclamado por milhares de pessoas. Afinal, a maioria vive no anonimato e vive muito bem. A televisão não comporta espaço para todas as crianças que possuem talentos artísticos. É preciso interpelar as condições em que surge a iniciativa dos pais que levam os filhos para os programas de TV. Adiante, quando estiverem crescidinhos, os filhos cobrarão por isso. E creio que poderão tomar as suas próprias decisões. Longa vida à Maisa.

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A caixa de Pandora – mito

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Zeus – o deus supremo da mitologia grega – é fruto de uma complicada teogonia que se assemelha à genealogia humana. Bravo e vingativo, o deus dos gregos casou-se inúmeras vezes gerando uma sucessão de deuses menores: Apolo, Hebe, Hermes, as Musas, etc.

Diz-se do estranho chefe do Olimpo que havia ódio em seu coração e que tinha prazer em castigar os homens. E que certa vez, para vingar-se de certo humano de nome Prometeu que roubara uma faísca do sol para com ela iluminar a inteligência humana, o mal humorado superintendente celeste resolve castigá-los fazendo-os perder-se para sempre por meio de uma mulher extremamente bela, detentora de todos os dons, Pandora, a primeira mulher!

Ela é criada e enviada para Epimeteu (o que vê depois), embora Prometeu (o previdente) houvesse aconselhado seu irmão a não aceitar nenhum presente de Zeus de quem desconfiava muito. Ela traz consigo do Olimpo um presente de núpcias para Epimeteu: uma arca de ouro hermeticamente fechada.

Segundo Hesíodo, o poeta camponês, Pandora teria aberto a caixa levada pela curiosidade feminina de onde saem todas as desgraças e calamidades para os homens que viviam tranqüilos e felizes até então. Ao fechá-la, depois, rapidamente, conseguiu prender em seu interior a esperança que por séculos ficaria encerrada como uma promessa de retorno aos felizes e ditosos tempos da infância da espécie humana sobre a Terra.

A curiosa lenda traz consigo muitos aspectos interessantes relacionados com outras lendas e crendices que fazem parte de outras culturas e com muitos preconceitos que até hoje existem.

Sobre a curiosidade da primeira mulher, que muito tem a ver com a indiscrição (e que não é somente feminina), e as conseqüências desastrosas de um defeito tão generalizado, pode-se dizer que na história real do ser humano essa curiosidade transformou-se num terrível defeito que tem causado muitas desgraças e calamidades. A curiosidade conduz ao intrometimento, à indiscrição, à superficialidade, à vulgaridade, ao efêmero. Compreensível no homem pré-histórico e nas crianças, que de certa forma reproduzem a evolução da espécie desde os primeiros tempos, e também nos homens de ciência em suas investigações, é inaceitável para o homem de hoje quando o torna distante de si mesmo, atento a tudo quanto ocorre ao seu redor, mas alheio ao que ocorre com ele próprio, com sua própria pessoa.

O mito de Pandora pode nos levar a muitas conclusões: desde a inutilidade de um deus vingativo até a necessidade humana de transcender estados inferiores de evolução, passando, também, pela necessidade de rever os preconceitos que existem em relação à mulher cuja graça e beleza não poderia nunca ser o invólucro do pecado e da desgraça especialmente encomendados por um Zeus duvidoso.

A esperança, providencialmente encerrada na caixa de Pandora, residiria na possibilidade da superação das condições humanas a partir da evolução pessoal de cada indivíduo que sentisse a necessidade de construir um mundo melhor para si mesmo e para a humanidade do futuro.

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