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A sabedoria dionisíaca instintiva e inconsciente na linguagem do pathos filosófico

Por Thiago Rodrigues

Em memória do grande maestro Danilo Di Manno de Almeida

“Povo miserável! É culpa minha se em vosso meio vaguei como uma cigana pelos campos e tenho de me esconder e disfarçar, como se eu fosse a pecadora e vós os meus juízes? Vede minha irmã, a Arte! Ela está como eu, caída entre bárbaros e não sabemos mais nos salvar. Aqui nos falta, é verdade, justa causa; mas os juízes diante dos quais encontraremos justiça têm também jurisdição sobre vós, e vos dirão: Tendes antes uma civilização, e então ficareis sabendo vós também o que a filosofia quer e pode.” (Nietzsche, A Filosofia Trágica na Época dos Gregos, §2)

Talvez a única maneira de se fazer filosofia seja eliminando o dualismo entre corpo e alma, ou melhor, entre pensamento e vida. Se assim o é, então nossas vivências, nossa biografia, é parte fundamental no processo filosófico. Sendo assim, permito-me iniciar esta breve reflexão apresentando algo acerca da minha própria experiência com a filosofia.

Minha aproximação com a filosofia se deu, primeiramente, através da literatura, e sempre me causou estranhamento a pretensa objetividade e veracidade do discurso filosófico. Sempre me senti inclinado a ver mais verdade em um poema do que numa tese defendida de forma objetiva através do discurso científico corrente. Talvez a pergunta que mais tenha me incomodado seja: quais são os limites da linguagem filosófica? Até que ponto ela representa(ou pode representar) a verdade? Qual é o alcance dessa objetividade científica?

Partindo desta problemática, gostaria de retomar a reflexão apresentada por Nietzsche no aforismo §13, de O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música, em que o filósofo, ao fazer uma crítica à Sócrates, faz uma crítica ao discurso normativo do lógos racional. Deste modo, com Sócrates, há uma inversão fundamental. Aquilo que deveria orientar o saber humano, isto é, o instinto, passa a ser determinado pelo entendimento, ou seja, pelo discurso racional. Portanto, como diz o filósofo, “Enquanto em todos os homens produtivos o instinto é precisamente a força criadora-afirmativa e a consciência se porta como crítica e dissuasiva, em Sócrates é o instinto que se torna crítico e a consciência, criadora[…]”(Nietzsche, 1978a, p. 12, §13). Deste modo, a tradição filosófica ocidental teria privilegiado o discurso racional em detrimento do instinto criador.

Parece que aqui é posto um novo dualismo, só que agora entre entendimento e instinto, e que em Nietzsche aparece representado nas figuras de Apolo e Dioniso. No entanto, se não há separação entre vida e pensamento também não existe separação entre o apolíneo e o dionisíaco, o que ocorre é essa supervalorização do âmbito racional da existência em detrimento da intuição ou da “irracionalidade”.

Mas o que são esses dois âmbitos da existência, o lógosracional e o instinto criador-afirmativo?

Não me deterei no que diz respeito ao lógos racional – que chamarei de entendimento tal como proposto por Kant dentro de uma perspectiva Iluminista e que, portanto, privilegia o discurso racional – por se tratar da maneira como convencionalmente nos aproximamos do saber humano.

Em contraposição ao lógosracional gostaria de introduzir a noção de “pathos filosófico”. Ora, se o lógos racional aparece como discurso normativo, o pathos filosófico representa a força criadora-afirmativa. Vinculado à sensibilidade e ao âmbito irracional do saber humano opathos filosófico talvez encontre na arte a dimensão privilegiada para manifestar-se.

Parece-me que através da sensibilidade podemos expressar algo para além daquilo que o entendimento é capaz de expressar. Assim, a angústia diante da morte expressa em A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, por exemplo, não encontra paralelo dentro da perspectiva cientificista da filosofia racionalista. E isso não significa que o pathos filosófico desqualifique o lógos racional, e sim, que através dele podemos comunicar o “incomunicável”, podemos ir mais além.

Será? Nietzsche atribui à música o papel de expressar tragicamente o mundo, ou melhor, a música é entendida como a pura expressão do mundo. Aceitando esse pressuposto é “somente como um fenômeno estético que a existência e o mundo aparecem como legitimados”(Nietzsche, 1978a, p. 21, §24). Em outras palavras é só enquanto fenômeno estético que se atribui sentido à vida, e que assim, talvez tenhamos que encarar a vida como a criação de uma obra de arte. Portanto, a arte é a única “capaz de converter aqueles pensamentos de nojo sobre o susto e o absurdo da existência em representações com as quais se pode viver”(Nietzsche, 1978a, p. 9, §7).

Se, como aparece no inicio deste texto, não há separação entre vida e pensamento, então temos que encarar o pensamento também como a criação de uma obra de arte, tal como no espírito trágico descrito por Nietzsche. Sendo assim, o que busco ao usar a expressão “pathos filosófico” é resgatar a “sabedoria dionisíaca instintiva e inconsciente na linguagem da imagem”(Nietzsche, 1978a, p. 17, §16), ou seja, defender que é através da imagem “não-racional” da arte que a filosofia comunica o “incomunicável”.

Se pensarmos essa compreensão dentro da produção filosófica, podemos dizer que existem filósofos que buscam privilegiar a objetividade da linguagem científica, e outros que, por sua vez, privilegiam o pathos filosófico descrito, como forma de realizarem sua filosofia. E é nesse segundo modo de fazer filosofia que Nietzsche se encontra.

Para os pensadores que transitam entre a objetividade do discurso científico e a sensibilidade do pathos filosófico, ou melhor, que compreendem que não há separação entre esses dois âmbitos, a expressão puramente lógica não dá conta do seu pensamento e por isso há a necessidade de introduzirem elementos afetivos, característicos do discurso artístico. Para ficarmos no exemplo de Nietzsche, quem é capaz de negar o alcance expressivo de sua filosofia que se apresenta através de aforismos que muitas vezes estão mais para a poesia do para a filosofia[1], ou ao menos, em relação aquilo que tradicionalmente entendemos por filosofia.

E essa postura significa não apenas abordar as questões afetivas ou que dizem respeito à sensibilidade, mas também, e principalmente, incorporá-las no interior da racionalidade como elemento de interpretação do mundo e da vida.

E é fundamental dizer que não se trata de entender a arte como porta de acesso ao pensamento, como uma forma de ilustrar teses filosóficas, e sim, cabe reforçar, como forma de expressar para além do que a linguagem objetiva é capaz. Assim, não é que Nietzsche diz sua filosofia através da poesia implícita em seus aforismos, mas que seu pensamento é a própria poesia em forma de aforismos.

 Posto estes pressupostos gostaria de levar essa breve reflexão para o plano da educação, para tanto, utilizarei mais uma citação de Nietzsche (1978, p. 17 e 18 Grifo meu) em O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música, aforismo §18:

Todo nosso mundo moderno está preso na rede da civilização alexandrina e conhece como ideal o homemteórico, equipado com os máximos poderes de conhecimento, trabalhando a serviço da ciência, cujo protótipo e ancestral é Sócrates. Todos os nossos meios de educação têm em vista, primordialmente, esse ideal. […]

Esta citação me interessa, principalmente, porque introduz a crítica de Nietzsche à figura do “erudito”. Para o filósofo, essa educação pautada pelo ideal do homem teórico busca “adestrar” o jovem para ser erudito, ou seja, o educa para a “prova de filosofia”, para que ele se torne um professor de história da filosofia, um reprodutor do pensamento tradicional, e não para a prática filosófica, para uma filosofia da(e na) vida.[2] Desse modo, o erudito é entendido como o reprodutor do pensamento acumulado ao longo dos anos pela tradição filosófica ocidental tendo como função reproduzi-lo e passá-lo adiante.

Dessa reflexão Nietzsche lança uma crítica crucial – e talvez hoje mais do que nunca – ao papel do Estado dentro do processo educacional: E se “a ‘educação para a filosofia’, em vez de conduzir a ela, servisse para afastar da filosofia?” (Nietzsche, 1978b, p. 81, §8).

Mas não me deterei nesta crítica, pois não diz respeito diretamente ao tema desta reflexão, embora esteja à ela relacionada. Gostaria de retomar, portanto, o papel dopathos filosófico, só que agora, no âmbito educacional.

Fica claro que o ideal de homem teórico descrito por Nietzsche e que foi eleito como o ideal de educação dentro da tradição ocidental remete ao que chamei de discurso normativo do lógos racional, ou seja, o homem teórico é o homem científico, racional e objetivo, é, portanto, o erudito.

Talvez devêssemos resgatar a intuição e a espontaneidade como princípios fundamentais para uma educação para a vida. Uma educação para a vida é aquela que não se pauta por nenhum ideal e que, ao contrário, busca na força criadora-afirmativa um instinto básico e completamente imprevisível que encare a educação, assim como a própria vida, como ato criador, tal como acontece com a criação de uma obra de arte.

Uma educação encarada como criação se apresentaria como uma espécie de antídoto ao cientificismo corrente dentro de nossa tradição. Assim, uma instrução artística – que talvez também pudesse ser chamada de dionisíaca -, resgataria a beleza e o sentido dado à existência. E o mais importante, e que é um dos pontos em que a arte mais se diferencia da ciência, é que a arte apresenta uma imagem da vida como um todo. Portanto, o filósofo é aquele que afirma a vida em seu conjunto, é aquele que lê sua própria vida na imagem da vida em sua totalidade. Ou então, aproveitando a imagem utilizada por Nietzsche, enquanto o erudito olha para um quadro e vê as tintas, a técnica utilizada, e os materiais, o filósofo vê a “pintura universal da vida e da existência”em seu todo.

Mas o que possibilitaria essa educação dionisíaca? Ora, se é através do pathos filosófico que a “sabedoria” se mostra de forma “dionisíaca instintiva e inconsciente na linguagem da imagem”, então é preciso encarar a educação e a cultura como sendo inseparáveis. É preciso que a educação esteja de tal modo integrada à cultura que esta possa fomentar naquela um desenvolvimento sadio e afirmador da vida.

Encarar a educação e a cultura como inseparáveis significa trazer a arte, em especial no diz respeito a criação, para o “ambiente escolar”, ou seja, fazer da educação um ato criador no qual cada sujeito é autor de sua própria formação, caracterizando um processo de formação de si de forma criativa e autônoma, nesse sentido, o professor não passaria de um provocar e de um interlocutor.

Por fim, retorno as questões levantadas no início desta reflexão e que remetem aos princípios apolíneo e dionisíaco do saber humano. No qual Apolo representa ológos racional, as formas, os limites, enquanto que Dioniso representa o pathos filosófico, o instinto, o impulso, a embriaguez. E é da síntese destes dois princípios que surge o saber humano. No entanto, para Nietzsche, houve um descompasso entre esses dois princípios, e a tradição ocidental privilegiou a racionalidade em detrimento do instinto, como conseqüência herdamos uma educação enferma e que, portanto, só pode gerar “doentes”.

Deste quadro recoloco as questões: quais são os limites da linguagem filosófica?

Só existe verdade dentro do discurso científico? Até que ponto essa objetividade científica dá conta de expressar o pensamento filosófico e, em última instância, a vida? E ainda, é possível ensinar filosofia ou só a filosofar? Isto é, se coloco a filosofia como algo já construído não impossibilito ao estudante de filosofia a prática filosófica?

É nesse sentido que acredito que o pathos filosófico apresenta uma alternativa dentro do processo de formação, resgatando a intuição e a subjetividade como forma de acesso à uma educação que prepare para a vida e não apenas para a teoria. Transformando todo impulso vital em técnica e erudição, a educação nega aquilo que o homem tem de mais nobre que é a “vontade de vida”.

Notas:

[1] Para ilustrar essa tese gostaria de citar integralmente o aforismo §341 de A Gaia Ciência, p. 230, por sua qualidade estética e por sua capacidade de expressar o “incomunicável”: “O mais pesado dos pesos. – E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: ‘Esta vida, assim como tu a vives e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e grande em tua vida há de retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!’ – Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: ‘Tu és um deus, e nunca ouvi nada mais divino!’ Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta diante de tudo e de cada coisa: ‘Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?’ pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?”

[2] Para corroborar essa tese gostaria de citar um trecho, um tanto longo, de Schopenhauer como Educador, §8, p. 81, de Considerações Extemporâneas“E, por fim, em que nesse mundo importa aos nossos jovens a história da filosofia? Será que eles devem, pela confusão das opiniões, ser desencorajados de terem opiniões? Será que devem ser ensinados a participar do coro do júbilo: como chegamos tão esplendidamente longe? Será que, porventura, devem aprender a odiar ou desprezar a filosofia? Quase se poderia pensar este último, quando se sabe como os estudantes têm de se martirizar por causa de suas provas de filosofia, para imprimir as idéias mais malucas e mais espinhosas do espírito humano, ao lado das mais grandiosas e mais difíceis de captar, em seu pobre cérebro. A única crítica de uma filosofia que é possível e que além disso demonstra algo, ou seja, ensaiar se se pode viver segundo ela, nunca foi ensinada em universidades: mas sempre a crítica de palavras com palavras. E agora pense-se em uma cabeça juvenil, sem muita experiência da vida, em que cinqüenta críticas desses sistemas são guardados juntos e misturados – que aridez, que selvageria, que escárnio, quando se trata de uma educação para a filosofia! Mas, de fato, todos reconhecem que não se educa para ela, mas para uma prova de filosofia: cujo resultado, sabidamente e da hábito, é que quem sai dessa prova – ai, dessa provação! – confessa a si mesmo com um profundo suspiro: ‘Graças a Deus que não sou um filósofo, mas cristão e cidadão do meu Estado!’”

Referências Bibliográficas: 

ALMEIDA, Danilo Di Manno de. Subjetividade e Discurso da Qualidade Educacional: Contra a Difamação do Docente.Revista do COGEIME, v. 14, p. 95-105, 2005.

DIAS, Rosa Maria. Cultura e Educação no Pensamento de Nietzsche. Impulso, Piracicaba, v.12, n. 28, p. 33-40, 2001.

NIETZSCHE, Friedrich. O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música. Tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1978a. 2ª Ed. (Col. Os Pensadores)

___________. Schopenhauer como Educador. In: Considerações Extemporâneas.Tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1978b. 2ª Ed. (Col. Os Pensadores)

___________. A Gaia Ciência. Tradução e notas de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001

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